segunda-feira, 21 de dezembro de 2015


Feliz Natal!

“Eis que vos anuncio uma grande alegria”...
Assim começa a mensagem que os anjos dirigem aos pastores sobre o nascimento do Salvador Jesus Cristo. Como é bom receber boas notícias. Todos desejamos que a cada dia pudéssemos abrir os jornais, as páginas da internet, os e-mails e encontrar notícias de grande alegria.

Mas nem sempre é assim...
Da mesma forma que um nascimento necessita do tempo certo para que o bebê venha à luz, as boas notícias precisam esperar pelo tempo da colheita. Isso significa que boas notícias são o fruto de uma semente lançada anteriormente por alguém. Colhe-se o que é plantado.
Se queremos uma humanidade melhor precisamos semear tudo aquilo que produzirá essa mudança para melhor.
O nascimento de Cristo, a encarnação de Deus, é o fruto de uma semente de amor que Deus plantara já na criação do mundo. Desde sempre o Pai veio preparando o terreno do coração humano para que nele nascesse seu Filho.
Somos convidados todos os anos pelas celebrações litúrgicas a cultivar essa semente de amor que Deus plantou em nossos corações para que no tempo certo ela germine e produza frutos de grande alegria a toda a humanidade.

Desejo a todos um Santo Natal. Que esta boa-nova de grande alegria fortaleça nossa esperança e sustente nossa perseverança no cultivo do amor. Feliz Natal!

terça-feira, 2 de setembro de 2014

O Decálogo da serenidade de João XXIII

1- Somente hoje procurarei viver o presente (em sentido positivo), sem querer resolver o problema da minha vida, inteiramente de uma só vez.
2- Somente hoje, terei o máximo cuidado pelo meu aspecto: me vestirei com sobriedade; não levantarei a voz; serei gentil nos modos; ninguém criticarei; não pretenderei melhorar ou disciplinar alguém, a não ser eu mesmo.
3- Só por hoje me sentirei feliz com a certeza de ter sido criado para ser feliz não só no outro mundo, mas também neste.
4- Só por hoje me adaptarei às circunstâncias, sem pretender que as circunstâncias se adaptem todas  aos meus desejos.
5- Só por hoje dedicarei dez minutos do meu tempo a uma boa leitura, lembrando-me que assim como é preciso comer para sustentar o meu corpo, assim também a leitura é necessária para alimentar a vida da alma.
6- Só por hoje praticarei uma boa ação sem contá-la a ninguém.
7- Só por hoje farei algo que não gosto de fazer e se me sentir ofendido nos meus sentimentos farei de modo que ninguém perceba.
8- Somente hoje, organizarei um programa:talvez não o siga exatamente, mas o organizarei. E tomarei cuidado com dois defeitos: a pressa e a indecisão.
9- Somente hoje, acreditarei firmemente, não obstante as aparências, que a boa providência de Deus se ocupa de mim como de ninguém no mundo.
10-Somente hoje, não temerei. De modo particular, não terei medo de desfrutar do que é bonito e de acreditar na bondade. Posso fazer, por doze horas, o que me espantaria se pensasse em ter que o fazer por toda a vida.

terça-feira, 29 de julho de 2014

A morte não é nada....


A morte não é nada.
Apenas passei para o outro lado: é como se estivesse escondido na sala ao lado.
Sou sempre eu e você sempre você.
Aquilo que antes éramos um para o outro somos ainda agora.
Chama-me com o nome que sempre me chamou, que lhe é familiar;
fale comigo da mesma forma afetuosa que sempre usou.
Não mudar o tom de voz, não assumir um tom solene ou triste.
Continue a rir daquilo que nos fazia rir,
daquelas pequenas coisas que nos davam tanto prazer
quando estávamos juntos.
Reze, sorria, pense em mim!
o meu nome seja a palavra familiar de antes:
pronuncie-o sem o mínimo traço de sombra ou tristeza.
A nossa vida conserva todo o significado que sempre teve:
é a mesma de antes, tem uma continuidade que não se interrompe.
por que deveria estar fora dos seus pensamentos e da sua mente, só porque estou longe da sua vista?
Não estou distante, estou do outro lado, exatamente logo ali atrás.
Tranquilize-se, está tudo bem.
Encontrará o meu coração,
encontrará a ternura purificada.
Enxugue as suas lágrimas e não chore, se me ama:
o seu sorriso é a minha paz.

(http://ricettedicucinaenonsolo.blogspot.it/2014/05/la-morte-non-e-niente-sono-solamente.html)

segunda-feira, 31 de março de 2014

Lágrimas de homem - por padre Orivaldo Robles

Se, como dizem, homem não chora, estou mal na foto. Por muito pouco, mesmo com esforço para segurar, acabo caindo no choro. Justifico-me apelando para as sete décadas que carrego nas costas. Idosos são emocionalmente mais frágeis que jovens. O duro é que no meu caso deve ser não consequência da idade, mas jeito da madeira. Minha saída de Paranacity foi prova clara. Eu estava com trinta anos. No discurso de despedida daquele povo que eu tanto amava, destampei numa choradeira inconsolável. Não consegui pronunciar mais que três ou quatro palavras. Dei um vexame histórico.
Remexendo o fundo do baú de meu coração mole, encontro o pesar imenso que me causa a dor especialmente de crianças. O sofrimento desses inocentes – ah, não dá – me engrola a língua e me arranca lágrimas. Isso vem de longe. Eu tinha três ou quatro anos quando a mãe nos contou, a mim e a meu irmão, um episódio que só de recordar ainda me entristece. O Eraldo, mais velho, já um pouco habituado, quem sabe, às brutalidades da vida, não pareceu ter-se impressionado tanto. Mas a mim, que não podia imaginar ninguém mais pobre do que nós – e, contudo, nunca nos faltara o que comer – por noites seguidas, foi-me difícil conciliar o sono. Voltava-me à imaginação a pobre mulher (que não vi, mas a mãe contou), em conversa com o filho pequeno a lhe implorar comida. Ela argumentava: “Mas você não comeu duas veis (sic)”? Ainda que repetido, o prato não fora bastante para seu infantil apetite. Ou para sua fome, que é mais pungente que qualquer apetite. Não sei que providência minha mãe tomou. Com certeza, não foi capaz de dar solução definitiva ao problema.
Sofrimento de criança não é aceitável para ninguém. Adulto ainda vá lá; pode explicar a dor ou lhe oferecer resistência. Mas criança, não. Para criança a vida teria que reservar sorriso e nada mais. Criança é botão de flor que desabrocha. É manhã de dia que o sol clareia.
Tristeza de criança me desata um pranto que, só a custo, quando consigo, não deixo rolar dos olhos. Como no atendimento à jovem mulher que veio lamentar o sumiço do companheiro. Não dava notícia havia três meses. Ela não sabia para onde ele fora nem se voltaria. Estava sem dinheiro para o leite do garotinho. Não sabia a quem recorrer. Podia trabalhar, mas com quem deixá-lo? Enfrentaria qualquer serviço, mas não dispunha de ninguém para cuidar do pequeno. O bebê tinha uma beleza de chamar a atenção. Como pode alguém, especialmente o pai, abandonar criança tão linda? Fitava-me com olhos imensos e inexpressivos. Um pouco assustado com o choro que a mãe fazia força para lhe ocultar. Brinquei com ele, fiz-lhe mil festas. Não lhe arranquei sequer um arremedo de sorriso. 
Dei à mulher uma importância que poucos lhe dariam. Saiu agradecida. Em nenhum momento o bebê desviou de mim seus olhos lindos e distantes.
Dirão que fui tolo, eu sei. Se fui levado na conversa, não terá sido a primeira vez. À Assistência Social, não a mim, cabe resolver esse problema. Não é meu papel. Mas a criança me desmontou. Disfarçando para não chorar, dei dinheiro para o leite de vários dias. Mamadeira vazia criança nenhuma merece.
Ainda me faz sofrer a lembrança daquele rostinho lindo, dolorido, sem o encanto de um sorriso.

segunda-feira, 10 de março de 2014

O sabiá - por padre Orivaldo Robles

“Minha terra tem palmeiras/Onde canta o sabiá;/As aves que aqui gorjeiam/Não gorjeiam como lá”. Fosse o seu Maranhão dominado, como hoje, pelo clã Sarney, é provável que Gonçalves Dias não visse Coimbra como exílio, mesmo tendo lá vivido muito jovem, como estudante, dos 15 aos 22 anos. Nem talvez sentisse tanta saudade.  
Desconheço que palmeiras eram as de Caxias (MA), sua terra, às que se refere. Não, com certeza, as garbosas palmeiras imperiais da nossa Avenida 15 de Novembro. Imperiais, porque o primeiro exemplar foi plantado por Dom João 6°, no Jardim Botânico do Rio, em 1809.
Para cantar sabiá prefere mesmo palmeira? Jamais saberei. Durante muito tempo, bem cedinho, na Avenida 15 de Novembro, encantou-me a melodia de um sabiá-laranjeira. Nunca percebi se cantava em palmeira ou noutra árvore. Pela “Canção do Exílio” tinha que ser numa palmeira. Muitas vezes tentei, mas é impossível vê-lo na folhagem daquela altura. Sabia esconder-se o espertinho. Lá no alto emitia seu gorjeio, que musicava minha manhã nascente. Assim foi por meses, nem sei quantos.
Até que, em fins do ano passado, uma ruidosa e comercial programação de Natal tomou conta da cidade. Não sei se pelo foguetório ou se pelo vozeado interminável de locutores gritões, o certo é que o coitadinho assustou-se. Sumiu. Levou tempo para eu tornar a ouvi-lo. Desta vez, lá na Praça Presidente Kennedy. Calculo que era o mesmo, embora nunca o tenha visto. Prudentemente, há de ter buscado distância da barulheira que, até tarde da noite, não lhe dava sossego. Recentemente, voltei a perceber, de novo, seu canto nas palmeiras da Avenida 15. Voltou. Pelo visto, sabiá não se dá bem com saudade. Como Gonçalves Dias. Porém não canta com a mesma frequência de antes. Também a melodia soa um pouco diferente. Mais triste, me parece. Além de que ele abreviou o recital. Executa apenas meia partitura.
O amiguinho cantor trouxe-me à lembrança antigo colega seu, um ascendente longínquo talvez. No seminário do Batel, em Curitiba, sem falhar um dia, ele acompanhava nossa oração da manhã. Antes da missa, observávamos meia hora de meditação silenciosa. Éramos então brindados com seu primoroso concerto. Ele devia morar no bosque do alemão, nosso vizinho. Enfeitava com graciosas volteaduras o longo trinado. Um Milton Nascimento dos sabiás.
Fico matutando se também aos pássaros canoros antigamente não se exigia melhor técnica e potência vocal. Porque na raça dos humanos, hoje em dia, qualquer pobre diabo se considera cantor. Ainda que lhe falte voz, e careça, por completo, de ouvido musical. A tecnologia do estúdio disfarça as falhas.
Que imenso poder nós temos de modificar nosso planeta. Até aos pássaros conseguimos arrebatar-lhes o natural habitat. Em troca, lhes providenciamos uma versão moderna, que julgamos melhor: no campo, a monotonia da soja, da cana e do pasto; na cidade, a aridez dos prédios, do cimento e do asfalto. Nosso “progresso” condenou à morte até o último capãozinho de mato nativo, onde o ar era puro e a água corria limpa; onde havia fartura de insetos, sementes e frutas. Hoje, não Gonçalves Dias, mas o sabiá é que canta sua canção do exílio. Numa melodia empobrecida.
Os sabiás novos desconhecem o precioso repertório dos antigos. Também, nem lugar sobrou para os coitados ensaiarem. Assim, como vão aprender?

domingo, 2 de março de 2014

O palavrão - por padre Orivaldo Robles

Tarde de um domingo destes. Caminho para a Catedral. Em minha direção, na calçada, vêm dois rapazes. A todo instante olham para trás com um sorriso maroto. Lá adiante, o motivo: três garotas em shortinhos sumários, que só não revelam pensamento. É a moda, que fazer? Ninguém lhe resiste. (A propósito, alguns esperam que o padre condene trajes curtos na igreja. Nunca me senti à vontade para isso. Não é minha praia. Faz anos, após muita cobrança, expliquei: “Gente, não tenho nenhuma competência para a moda. Nem, aliás, para muitas outras coisas. Não se usa longo em praia nem biquíni em casamento. Para uma igreja, o marido, pai, avô, irmão, primo, namorado... da senhora ou da senhorita vejam se a roupa é adequada ou não. Quem convive com elas é que deve opinar sobre o que vestem”).
Voltando às jovens: alcanço-as no semáforo fechado. Antes que ele abra por completo, passam correndo. Um motorista buzina. A mais alta ergue o braço e, sem se importar com os presentes – parece desejar que todos ouçam – grita, o mais forte que pode: “Ah, vá se f...”! Levo um susto. Sou antiquado, reconheço. Entendo palavrão como descortesia, falta de educação. Pelo menos em público. Vindo de mulher, então, é um descalabro. Nos marmanjos, mais desbocados por natureza, surpreende menos. Mas mulher é pessoa fina, nobre, gentil.
Sabe-se lá quem criou o xingamento ou o baixo calão, que todas as línguas conhecem. Aquele mais comum, que ofende a mãe do atingido, pelo jeito, existe há séculos. Quase todos os povos o utilizam. Ou todos mesmo. Até na Bíblia, onde ninguém esperava encontrá-lo, ele aparece. Saul, primeiro rei de Israel, era um indivíduo de maus bofes. Apesar da nobreza do cargo, não tinha muita preocupação com a fineza das palavras. Prática seguida, ainda hoje, por muitos ocupantes de altos postos que, longe dos microfones, mostram levar uma latrina na boca. Num rompante de ira contra o filho Jônatas, Saul sapecou-lhe o xingamento de uso universal (1Sam 20,30). Para não chocar o leitor, as traduções da Bíblia costumam usar expressão mais suave. Mas, no popular mesmo, a gente sabe muito bem o que ele disse. E olhe que Saul viveu no século 11 a. C., embora os livros de Samuel, que contam a sua saga, tenham sido redigidos pelo século 7° a. C. Como se vê, boca suja não é invenção de hoje.     
Não sou nenhum puritano; não me escandaliza qualquer besteirinha. Compreendo, além disso, que situações excepcionais, vez por outra, acabem com a paciência do mais devotado discípulo de Jó. Por experiência aprendi, ao longo dos anos, quanto nos pesa o barro de que somos feitos. Mas uma dose de cuidado com as palavras cairia bem entre nós. Ultimamente as pessoas vêm usando um palavreado de fazer corar marinheiro em cais de porto. Isso é ser moderno, ser livre? Não será, antes, grosseria, falta de educação?

Desculpem-me os que me consideram um velho quadrado. Mas reflitam comigo: com razão reclama-se da violência que hoje assola o nosso mundo. Entretanto a violência nutre-se também da agressividade expressa no modo de falar. Do prazer doentio desfrutado por muitos num vocabulário canalha que, longe de dignificar, avilta as pessoas. Não será o caso de cuidarmos um pouco mais das palavras que usamos?

sábado, 28 de dezembro de 2013

Ao Menino Jesus - por padre Orivaldo Robles

Antes do Natal, crianças escrevem cartinhas ao Papai Noel. Eu, que deixei longe minha infância, escrevo depois do Natal. Não para o Papai Noel, mas para o Menino do presépio. Vai para ele minha última mensagem do ano:
Querido Menino Jesus.
Não sei para você, mas para mim foi bom ter acabado o agito do Natal. Para falar a verdade, tamanho rebuliço já estava me cansando. Não que eu não reconheça o significado do seu nascimento entre nós. Quem sou eu, miserável pecador, para não me extasiar, agradecido, ante o mistério de Deus, que vem ao nosso encontro na doçura de uma criança? Que nos dá o próprio Filho feito humano igual a nós em tudo, menos no pecado?  Com a Igreja também rezo ao Pai nestes dias: “No momento em que vosso Filho assume nossa fraqueza, a natureza humana recebe uma incomparável dignidade: ao tornar-se Ele um de nós, nós nos tornamos eternos”. Não é disso que estou falando, você sabe. O Natal nunca deixará de ser fonte e garantia de salvação para toda a humanidade. Como então não vibrar de alegria nem fazer festa por causa dele?
Não é a festa que me aborrece, Menino Jesus; é a ideia que dela muitos fazem. Nada além de comida, bebida e caríssimos bens consumíveis. Você acompanhou o movimento do centro, nos dias de preparação para o Natal? No comércio, um atropelo de dar medo. Nas calçadas, gente trombando com gente. Até se pisando, por falta de espaço. Meu coração mole sofre pelas crianças que nunca entraram num shopping. Só conhecem lojas de artigos baratos, à altura do salário que os pais recebem. Muitas, nem isso.
No fim, para que essa correria? Pela irreprimível ilusão de comprar para si e para os seus um feliz Natal. Cá com meus botões, fiquei pensando: “Ah, não vai haver felicidade para todos. Mesmo com estoques reforçados, as lojas não vão dar conta. Vai sobrar gente sem felicidade. Quem chegou primeiro acaba comprando tudo”. Pra você ver, Menino, em que se transformou hoje a festa do seu nascimento.
Triste é perceber que, por diferentes que pareçam, as coisas não mudaram tanto assim. Possivelmente nem tenham mudado. Quando você nasceu, quem se importou com o casal pobre e desconhecido – a mulher muito jovem e grávida –, longe de casa, precisando de ajuda? Quem olhou para um bebê que, por falta de berço, a mãe se obrigou a acomodar nas cavidades da pedra de um estábulo de animais? Preocupar-se com esse tipo de gente? Imagine! Da mesma forma que naquela noite, em Belém, quem hoje mostra interesse pelo seu nascimento, Menino?  As pessoas têm a atenção voltada para shoppings e lojas de grife onde esperam adquirir a felicidade do Natal.
Penso nos pais e mães que se amarguram, quando o Natal vem chegando. Seu pobre coração se angustia. Não por sua causa, Menino. Por causa do outro, que ocupou o seu lugar. Ele expõe preciosidades que a indústria fabrica e o comércio vende. Só que não são para os pobres.

Apesar de simpático, o Papai Noel é incapaz daquilo que os anjos anunciaram naquela noite: glória a Deus e paz aos homens amados por Ele. Você, Menino Jesus, veio para mostrar que Deus ama a todos nós. Mas só os pobres conseguem admitir essa verdade. Quem tem o coração dominado pelo dinheiro não precisa de Deus. Nem da paz que você veio trazer.

sábado, 30 de novembro de 2013

Grandeza que vai acabando - por Padre Orivaldo Robles

Temos a mesma procedência; se não todos, quase todos. Viemos, em grande parte, de Minas ou do interior paulista. Se apreciamos uma generosa carne de porco, talvez o façamos não por elaborada preferência culinária, mas por lembrança do estilo de vida que aprendemos com nossos pais e avós. Na vida roceira em que fomos criados, matar porco era um ritual que envolvia toda a família. Por vezes, até algum vizinho, chamado a ajudar. Era trabalho que começava de manhã bem cedo. A gritaria do animal causava impressão ruim. A mãe tentava impedir que as crianças deixassem a cama para assistir. Se já estavam de pé, aconselhava a que se mantivessem afastados. Não era bom que presenciassem a violência que cabia ao pai executar. Nem deviam sentir pena do bicho. Quanto maior o dó que dele tivessem, tanto mais ele demoraria a morrer. Era a crendice aceita por todos. No fim, as recomendações mostravam-se inúteis. Que moleque ia perder um espetáculo daquele? Pouco depois, lá estavam todos chutando a bexiga do infeliz transformada em bola enchida pelo sopro num canudo de mamona e amarrada num barbante.
Naquele tempo, não se encontrava família que não observasse o ritual de enviar aos vizinhos um prato de carne do porco abatido. A dona da casa ordenava: “Leve para a Dona Benedita e fale que foi a mãe que mandou”. Explicação, a rigor, desnecessária. Logo cedo o berreiro avisava, a quilômetros de distância, que chegaria carne fresca para o almoço. Embora a carne fosse mesmo um subproduto. Porcos se criavam por causa da banha usada para cozinhar. Matava-se capado da ceva, mantido na engorda até criar toucinho de quatro dedos de altura no lombo. Carne de porco na nossa infância tinha um sabor que a gente deixou de sentir faz tempo. A vizinha recebia o presente, com a explicação pela frugalidade: “A mãe falou para não reparar que desta vez era um porquinho pequeno”. 
Sempre me impressionou esse curioso jeito de viver dos pobres. Sim, porque maior ou menor, todos tinham suas dificuldades. Contudo, em mesa nenhuma faltava o de comer. Generosidade era a grandeza de todos; partilha, o dever sagrado até de quem não tinha religião. Ninguém mesquinhava aos outros as coisas que possuía. Verduras da horta, leite das vacas, ovos das galinhas, frutas do pomar..., fosse o que fosse. Receber dinheiro por isso? Qualquer um teria vergonha até de pensar. Éramos vizinhos, não comerciantes. Não passava pela cabeça de ninguém fazer lucro com a precisão do outro. Se hoje eu tenho, amanhã posso muito bem não ter. Assim como hoje eu ajudo, amanhã, quem sabe, eu precise de ajuda.
Daí a estranheza que me causam pessoas estufadas de ganância, como tantas que se veem. Pessoas fissuradas por levar vantagem em tudo e a qualquer custo. Que ridicularizam princípios como vida comum, solidariedade, partilha, amizade, espirito de serviço, bondade de coração... Será que nossos velhos não nos souberam educar? Só nos transmitiram baboseiras? Transformaram-nos em pobres coitados, incapazes de descobrir as chances que a vida sempre oferece e que só os idiotas não aproveitam?

Às vezes, fico aturdido, confesso. Apesar de tudo, desejo e espero que Deus me deixe morrer como o tolo que, lá na roça, aprendi a ser.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O "bom" velhinho - por padre Orivaldo Robles

A senhora esperou-me atravessar a rua e me deteve: “Foi bom encontrá-lo. Nesta época do ano, lembro sempre seu ensinamento: que Natal é festa do Menino Jesus, não do Papai Noel. Tinha que lhe contar, sabe? Ano passado, levei meu sobrinho ao shopping. Queriam fazê-lo sentar-se no colo do Papai Noel. Ele se recusou. Muito firme, disse: ‘Natal é aniversário do Menino Jesus, não do Papai Noel’. Fiquei feliz de ver como ele aprendeu bem o que a gente ensina em casa”.
O período natalino volta com força e o velho gordo reaparece nas ruas, shoppings e lojas de toda a cidade. Com esse calorão mais forte a cada ano, é preciso coragem para envergar fardão vermelho, botas grossas, vasta barba e cabelos compridos. Com aquela cara de feliz, sorrindo para os pequenos. Às vezes um energúmeno resolve puxar-lhe a barba para conferir se é de verdade. Porque existe Papai Noel com barba verdadeira. Alguns a deixam crescer para compor uma fantasia mais realista. Imagino o calor que Papai Noel suporta em Araçatuba, Ilha Solteira ou Cuiabá.
Devo admitir que não alimento mais a ojeriza que, no passado, eu nutria pelo velho de uniforme vermelho. Consequência da idade, talvez. Com o passar dos anos, a gente vai se conformando com as limitações próprias e alheias. Esforço-me por compreender esses senhores rotundos, sorridentes, de barba branca, interessados em dar alegria às crianças nas portas das lojas. Estou certo de que preferem o turno da noite, quando a temperatura baixa e as luzes brilham. O calor do sol os maltrata e judia das crianças. Dá dó vê-las arrastadas pelos pais, chorando, nariz escorrendo, doidas para voltar para casa.    
  Nunca tive intimidade com Papai Noel. Criado na roça, atravessei minha infância inteira sem ele. Nem dei pela sua ausência. Os meninos à minha volta, pobres como eu, também o desconheciam. Éramos felizes à nossa moda. Garotos do sítio, tínhamos pai e mãe para cuidar de nós, dar-nos o necessário e nos ensinar como viver. Nossos brinquedos não eram comprados. Os de hoje nem existiam. Menos ainda esses modernos, cheios de nove horas, que já vêm brincados. Criança de hoje não brinca; aperta botões. Ganha umas geringonças que trazem prontas todas as possibilidades e recursos. Ela só precisa ligar. Quem brinca é a máquina. A criança fica assistindo.  
Na nossa infância não precisávamos, talvez, do Papai Noel. Dos pais, sim, nós precisávamos. Do pai para os meninos, da mãe para as meninas. Eram eles que fabricavam nossos brinquedos. E brincavam conosco. Hoje são as crianças que ensinam aos pais como funciona o brinquedo. Pai e mãe servem para dar dinheiro. E basta.
Sou mais condescendente com Papai Noel. Mas ele continua o mesmo intruso. O invasor de um espaço que não é seu. Natal celebra o nascimento de Jesus. Jesus é o grande presente dado por Deus à humanidade. Papai Noel não dá. Ele tira. Tirou o dono da festa e tomou o seu lugar.
Os shoppings do Brasil investem quase trezentos milhões em publicidade neste Natal. Para vender presentes e ganhar dinheiro. Ninguém pensa no Menino Jesus, que não sabe fazer propaganda. Quem manda no Natal é Papai Noel.

Estranho Natal o nosso, não? O aniversariante levou cartão vermelho. E um intruso virou o dono da festa. 

sábado, 16 de novembro de 2013

Querido Gonzaguinha - por Padre Orivaldo Robles

Outro dia, me dei ao cuidado de conferir a letra de “O que é, o que é?”, imortal samba de Gonzaguinha, falecido há 22 anos (tudo isso já?) em acidente no Sudoeste do nosso Estado. Nunca o tinha feito. Que riqueza de inspiração! Ele bem que podia ter durado mais que os seus poucos 45 anos. Ainda estaria produzindo coisas belíssimas, de valor incontestável. Muito melhores que as tolices de pretensos compositores, que frequentemente nos obrigam a ouvir em altíssimo volume. Sem pedir licença, alguns “donos” das ruas enfiam essas porcarias em nossos ouvidos. Nós, pobres vítimas, que podemos fazer?
Há tempo, venho-me convencendo de que atravessamos a era da mediocridade feliz. Na minha pobríssima opinião – que ninguém pediu, eu sei, e a poucos interessa –, grande parcela da sociedade vai sendo tangida por uma crescente imbecilização feita de desprezo do belo, do bom e do verdadeiro. Aprecia-se tão só o que oferece desfrute imediato, satisfação no momento, ainda que com sacrifício de valores perenes. Importa é conseguir prazer, dinheiro, prestígio, fama, admiração..., numa palavra, gozar a vida. “Edamus et bibamus, cras enim moriemur” (“comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”) – eis a proposta do consumismo moderno, que de moderno nada tem. Os romanos a herdaram dos filósofos hedonistas gregos. Até o profeta Isaías a conhecia (Is 22, 13).
Recordo que, em garoto, no seminário de São José Rio Preto, o holandês padre Alcuíno Derks levou mais de um mês ajudando-nos a refletir, um pouquinho por dia, sobre o tema: Vale a pena viver. Seu português canhestro tornou-o motivo de piada nos nossos recreios. Longe de seus ouvidos, fazíamos chacota da frase “Vale a pena de (sic) viver não só para comer doces e bolas” (sic), repetida por ele como um mantra para nos convencer do valor da vida.
Muitos anos mais tarde, o gênio de Gonzaguinha veio proclamar a excelência da vida. Que é ela? “Doce ilusão, maravilha, sofrimento, alegria, lamento, um nada, uma gota, menos que um segundo, um divino mistério, o sopro do criador numa atitude repleta de amor”? Tudo isso e mais ainda.
Num passado que há muito se perdeu, lá no sertão, cunharam o dito “matar para ver o tombo”. Traduzia o desprezo pela vida. Eram tempos de ignorância, de profundo atraso. Ainda não tinha chegado a civilização. Quando aportasse lá o progresso, tudo seria diferente. Haveria mudança para melhor. A vida seria apreciada no seu devido valor.
Vieram estradas, escolas, carros, aviões, computadores, celulares, ferramentas de comunicação ultramodernas... Em vez de melhorar, parece que piorou. Assassino hoje nem quer saber como a vítima caiu. Matam-se crianças, mulheres, índios, mendigos, homossexuais. Armas que a gente só via no cinema estão na mão de crianças no meio da rua, de dia. Gente, e a vida?

Antes de ter ceifada a sua, querido Gonzaguinha, você conseguiu brindar-nos com um luminoso hino à sublimidade desse divino dom, que nada fizemos por merecer. Quando dele tomamos consciência, já o vínhamos desfrutando há anos. Muito obrigado por advertir-nos de que precisamos parar um tempinho, toda manhã e toda noite, para nos perguntar: “A vida, o que ela é? Que estou fazendo da minha? Como trato a dos que vivem ao meu lado”?  

sábado, 9 de novembro de 2013

Ainda as mães meninas - por padre Orivaldo Robles

Perde-se nas trevas de um passado que ninguém conheceu ou lembra a época em que nossas avós se casavam com 12 ou 13 anos de idade. Aos 14, já carregavam nos braços o primeiro filho. Nem por isso elas deixavam de dar conta da casa, de cozinhar, lavar, passar, fazer sabão, criar galinhas, amassar pão... e uma infinidade de outras obrigações. Ninguém ouvira ainda falar sobre creche, babá, “baby-sitter”, essas coisas. Com muita sorte, a mãe adolescente, se tanto, recebia ajuda de uma criança pouco mais nova do que ela – irmã, prima ou vizinha – a quem, por instantes, confiava seu nenê. Contudo, o que arrumava, muitas vezes, era nova fonte de preocupação. Essa adulta de 14 anos passava a ter duas crianças sob seus cuidados.
 Passou o tempo. Os costumes mudaram. A vida hoje é diferente.
Quando nos procuram para tratar de casamento, os jovens andam por volta dos 30 anos. Vez por outra, a carinha quase infantil de uma noiva me confunde. Mas já completou 28, 30 ou um pouquinho mais. Acabou o casamento de adolescentes. Se aparece noiva de 16, 18 anos, a gente aconselha a refletir mais. A retardar uma decisão tão importante para si e para tantas pessoas que a amam.  
Pois não há de ver que neste final de outubro os jornais trouxeram uma notícia aterradora? Saiu, com todas as letras: “Brasil gasta R$ 7 bi com gravidez na adolescência”. É conclusão de estudo das Nações Unidas. Diz que o “Brasil conseguiria acumular R$ 7 bilhões a mais na arrecadação anual, se adolescentes adiassem a gravidez até depois dos 20 anos”.  Nos países em desenvolvimento, por dia (atenção, por dia!), 70 mil meninas abaixo dos 18 anos dão à luz. Dessas, 200 morrem por complicações da gravidez ou do parto.
Faz mais de 15 anos, escrevi sobre o assunto o texto “Mães meninas”. Se algo mudou foi, pelo que agora percebo, para pior. O problema não é só dos pais da garota. Afeta a sociedade por inteiro. A mesma sociedade que incentiva qualquer forma de prazer. Em especial o sexo desbragado, irresponsável.
 A sociedade admite exigências para jovem dirigir automóvel. Para abrir empresa. Para usar cartão de crédito. Para assinar escritura de propriedade. Para viajar desacompanhado (a) ao Exterior. Há leis para muitas coisas que os jovens gostam de praticar, mas para as quais não estão ainda preparados. Ninguém discorda. Afinal está em jogo o bem comum, que se sobrepõe ao interesse ou ao gosto pessoal.
Em se tratando, porém, do exercício da sexualidade, aí qualquer norma é taxada de censura. Obscurantismo medieval, destruição da liberdade. Pois as pessoas têm direito de fazer o que bem entenderem. Admitem-se (até se incentivam) práticas cujas consequências as vítimas carregarão por toda a vida. Mas que ninguém se meta: as pessoas são livres!
Só um exemplo: tolera-se qualquer tipo de entretenimento para nossos jovens. Até aqueles que fazem apologia dos mais baixos instintos. Tornaram-se comuns “festas” movidas por álcool e outras drogas além de “melodias” que convidam a desfrutar da mulher como de simples objeto de prazer. Aclamam-se as garotas que se expõem, que se oferecem. Os promotores do evento pouco estão se lixando para os frutos da “diversão” que organizam. Influenciáveis como são, o(a)s adolescentes tornam-se presas fáceis nas garras desses abutres.

Sobra para os pais consertar depois o estrago. Se conseguirem.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O escandaloso esbanjamento de eclesiásticos - por José Lisboa Moreira de Oliveira

Correu o mundo a notícia de que o Vaticano afastou do exercício do ministério episcopal o bispo Franz-Peter Tebartz-van da diocese de Limburg na Alemanha, por causa do seu esbanjamento ao construir sua residência. O bispo teria gasto 31 milhões de euros na construção de sua "modesta casinha” de pastor. Soma que convertida em reais, segundo a cotação do euro no dia em que comecei a escrever este artigo, seria igual a R$ 79.360.000,00.
A notícia causou impacto na grande mídia (sempre à procura de fofocas) e nas pessoas mais simples e honestas que ainda esperam dos ministros ordenados um testemunho de simplicidade e de pobreza, a exemplo de Jesus que "não tinha onde reclinar a cabeça” (Mt 8,20). Porém, para observadores atentos, o luxo, a ostentação e o esbanjamento de muitos padres e bispos é uma constante. Se analisarmos cuidadosamente o caso do Brasil, vamos ver que, nas devidas proporções, muitos aqui não ficam longe do bispo alemão. A seguir alguns exemplos ilustrativos.
Há quase dez anos, quando eu era professor de teologia no Instituto de Teologia de Ilhéus (BA), visitei uma comunidade de periferia na cidade de Itabuna (BA). Lá me deparei com o caso de um seminarista diácono, meu aluno, que estava para ser ordenado presbítero. O seminarista havia exigido daquela comunidade pobre, como presente de ordenação, uma casula no valor de três mil reais. Valor esse exorbitante para a época e para as pessoas daquele bairro pobre de periferia. Tempos atrás um bispo auxiliar de uma grande arquidiocese, hoje arcebispo na região Sudeste do nosso país, costumava exibir publicamente seus esbanjamentos. Entre esses esbanjamentos estava o fato de que ele morava num condomínio de luxo da capital, cuja taxa de condomínio naquela ocasião era de dois mil reais. Outro bispo, de uma simples diocese do Centro-Oeste, esnobava nas reuniões da CNBB que havia gasto trezentos mil reais apenas com a construção e decoração do presbitério da nova catedral. Uma arquidiocese está para construir uma nova catedral, cujo orçamento ultrapassa os cem milhões de reais. Recentemente o bispo de uma diocese do Nordeste brasileiro, encravada no polígono da seca, decidiu construir um luxuoso seminário para seus seminaristas, fora da própria diocese, onde os mesmos estudam filosofia e teologia. Para pagar as dívidas da construção decretou que cada paróquia deveria contribuir com determinada quantia. Passei na ocasião por algumas dessas paróquias e pude perceber o sofrimento do povo que, além dos problemas angustiantes provocados pela seca, tinha que se virar para arrecadar a quantia exigida pelo bispo. Falando sinceramente, diante de todas essas extravagâncias praticadas num país pobre como o nosso, os gastos do bispo alemão não passa de simples "fichinha”.
O que causa estranheza é o fato de que tudo isso aconteça após a realização do Concílio Vaticano II, o qual pediu que os ministros da Igreja, especialmente os bispos e padres, primassem pela simplicidade e pela pobreza, seguindo o exemplo de Jesus (PO, 17). Causa mais surpresa ainda saber que os esbanjadores eclesiásticos são ministros relativamente jovens, formados após o Vaticano II. O bispo de Limburg, afastado pelo Vaticano, tem 53 anos. Isso revela que a formação nos seminários e a formação permanente não estão conseguindo ajudar os pastores a viverem segundo o modelo de Cristo Pastor.
No caso do Brasil, as pesquisas apontam que a maioria absoluta dos seminaristas é originária de famílias pobres da zona rural ou das periferias das grandes cidades. No atual momento há uma prevalência de seminaristas provenientes das periferias urbanas. E talvez aqui esteja o motivo da tendência ao esbanjamento, ao luxo e à ostentação. Por serem oriundos de situações de extrema pobreza, os candidatos tudo fazem para sair da situação de miséria. Isso é uma coisa até certo ponto normal. Qualquer ser humano que tenha passado por uma situação de privação, ao ter uma oportunidade de sair dela, fará isso normalmente. Os seminaristas não são exceção à regra.
O que se deve questionar é a incapacidade do processo formativo de educar esses candidatos para uma vida simples e pobre. Os seminários e a formação permanente deveriam ser capazes de contribuir para que o seminarista pobre permanecesse pobre, mesmo depois de padre. Deveria ser capaz de ajudar o seminarista a entender que antes ele era pobre porque o sistema social e econômico injusto o impedia de ter o necessário para viver dignamente. Agora, como seminarista ou como padre, ele será ou permanecerá pobre por opção vocacional: para seguir Jesus Cristo pobre, o qual, ao assumir a condição humana se fez pobre para nos enriquecer com a sua pobreza (2Cor 8,9). A formação deveria ser capaz de ajudar o futuro ministro ordenado a não ter medo de permanecer pobre; de, por opção vocacional, voltar a passar por situações de privação vividas anteriormente.
Mas não é isso que vem acontecendo. A formação nos seminários aburguesa. Os seminaristas recebem tudo de graça, não precisam trabalhar para se manter. Têm à disposição deles casa, comida, roupa lavada, transporte, médico, remédio, estudos, livros etc. Em muitos seminários os seminaristas nem sequer colaboram com a limpeza dos pratos nos quais comem e da casa onde moram. São raros os seminários onde isso acontece. Conheço seminários onde os seminaristas, depois do almoço, dormem a tarde toda e nem sequer leem os textos indicados pelos seus professores. Isso aconteceu muitas vezes com alunos meus. Eles não precisam se preocupar, pois há funcionários pagos pela diocese para trabalhar para eles. Pagos por um povo de bobos e de ingênuos, o qual ainda acredita piamente que ele tem obrigação de sustentar a mordomia de certos seminaristas, padres e bispos. Enquanto isso, a dona Maria e o seu José, funcionários do seminário, não conseguem tratar a saúde dos filhos e, menos ainda, pagar uma faculdade para eles, pois o salário minguado que recebem da diocese não é suficiente.
A medida drástica tomada pelo Vaticano contra o bispo alemão foi necessária, mas convém ressaltar que isso não resolverá o problema. É preciso, com urgência, mexer na estrutura eclesial viciada. Estrutura essa que trata os ministros ordenados como verdadeiros "príncipes da Igreja”, os quais se acham no direito de exigir do povo que sustente suas mordomias. É preciso rever todo o processo formativo, tornando-o mais leve, menos custoso e menos aburguesado. Sem desprezar o princípio bíblico de que o evangelizador tem direito a um salário digno (Mt 10,10), a Igreja precisa educar seus ministros ordenados a, como o apóstolo Paulo, trabalharem com as próprias mãos para o próprio sustento (At 18,3; 1Cor 9,13-15) e a se contentarem com aquilo que a comunidade pode oferecer para a manutenção deles (Lc 10,7-8). Mas para se chegar a isso é fundamental romper com todo o esquema eclesiástico atual, pautado no amor ao dinheiro. Sem ruptura, continuaremos a pôr remendos e a colocar vinho novo em potes velhos (Mc 2,21-22). Os escândalos continuarão a acontecer, uma vez que "a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro” (1Tm 6,10).

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Blood Money - Aborto legalizado

 Europa Filmes e a Estação Luz Filmes lançam a partir de São Paulo, no próximo dia 5 de novembro, com uma série de avant premières, o documentário “Blood Money – Aborto Legalizado”, uma produção norte-americana independente, assinada pelo diretor David Kyle.
Após o lançamento em São Paulo, têm início roadshows de pré-estreias, incluindo o Rio de Janeiro (6), Goiânia (7), Brasília (8), Belém (9), Curitiba (11), Salvador (12), Recife (13) e Fortaleza (14). Nestas cidades, Kyle falará de sua primeira incursão no cinema com esse documentário, que está se tornando um cult pelo realismo e crueza com que trata o tema e pelas denúncias que faz.
O filme de 75’ entra em cartaz nos cinemas a partir de 15 de novembro. Segundo Luís Eduardo Girão, diretor da Estação Luz Filmes, que adquiriu os direitos de distribuição no Brasil, o filme “Blood Money – Aborto Legalizado”, pretende atrair o público brasileiro, pois disseca o tema, revelando a experiência prática em um país onde o aborto é legalizado há 40 anos. ”Apesar de mais de 70% da população brasileira serem contra a legalização do aborto, de acordo com os principais institutos de pesquisa do país, o tema gera polêmica, causa grande interesse e esclarece o assunto sob vários aspectos.
Por isso esperamos que provoque repercussão, levando ao amadurecimento deste necessário debate no Brasil, onde ainda teimamos em tratar o aborto com hipocrisia”, diz Girão. O documentário de Kyle trata do funcionamento legal desta indústria nos Estados Unidos, mostrando “de que forma as estruturas médicas disputam e tratam sua clientela, os métodos aplicados pelas clínicas para realização do aborto e o destino do lixo hospitalar, entre outros temas, de forma muito realista”, conta Girão.
O filme também faz denúncias como a prática da eugenia e do controle da natalidade por meio do aborto e trata aspectos científicos e psicológicos relacionados ao tema, como o momento exato em que o feto é considerado um ser humano e se há ou não sequelas para a mulher submetida a este procedimento.
“Blood Money – Aborto Legalizado” traz, ainda, depoimentos de médicos e outros profissionais da área, de pacientes, cientistas e da ativista de movimentos negros dos EUA, Alveda C. King, sobrinha do pacifista Martin Luther King, que também apresenta o documentário. Dra. Alveda é envolvida em discussões sobre o mecanismo de controle racial nos EUA – o maior número de abortos é realizado nas comunidades negras. Segundo o diretor da Estação Luz Filmes, o amplo esclarecimento que o documentário oferece foi o que motivou sua produtora a assinar contrato com Kyle para adquirir os direitos de distribuição no Brasil. “É a primeira vez que o cinema trata o assunto desta forma, tirando-o da invisibilidade em um momento em que a mídia brasileira começa a discutir o assunto com coragem e com a importância que merece. Acreditamos que vá atrair diversos segmentos sociais e pessoas sensíveis a essa questão, sejam elas contra ou a favor da legalização do aborto no Brasil”.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Horário de verão - por padre Orivaldo Robles

Estou correndo o risco de receber paulada dos que pensam de forma diferente. Não sou versado nas ciências que tratam do assunto. Ainda assim, me arrisco a palpitar sobre o horário de verão, já em vigor. “Livre pensar é só pensar”, dizia Millôr. Exerço o direito de reclamar à toa, o “jus sperneandi”.
Não gosto desse horário. Jamais gostei. E não sou o único. Ele coleciona inimigos, assim como defensores, não sei em que proporção. Na Câmara dos Deputados repousam três projetos de lei, à espera da chance de o mandarem todos sabem para onde. Sinal de que também o detestam pessoas bem mais importantes que este obscuro escriba.
Todo ano, no terceiro domingo de outubro, desce um pesado mal-estar sobre meu corpo que, há tempo, consumiu os anos radiosos da juventude. Confesso que a primeira semana é braba. Depois, pouco a pouco, a máquina se adapta. Assim mesmo, pegando só no tranco. E contando os dias que faltam para o terceiro domingo do fevereiro seguinte.
Ouvi falar que esse horário é bom para aposentados. Também para quem pega no batente às nove da manhã. Ou ainda para os que dão expediente à tarde. Não tenho como comprovar. Cada um sabe de si. Agora, para quem pula da cama às 5h45m, inclusive nos sábados e domingos, não tem graça nenhuma. A sensação que me traz é a de que estou sempre atrasado. Parece que sobram obrigações no fim do tempo disponível para cumpri-las. É só descuidar um tiquinho que o relógio, implacável, vem buzinar na minha cabeça avisando que é tarde. Que amanhã o dia começa antes das seis. Não sei como alguns foram inventar que os dias se tornam mais longos. Que se conseguiu grande lucro com a ideia de retardar artificialmente a hora do pôr-do-sol.
Andei lendo que nos países equatoriais e tropicais a luz solar é quase a mesma, o tempo todo. Não há grande diferença entre os vários períodos do ano. No Brasil a distinção entre as quatro estações é mínima. Sem consultar a folhinha, quem sabe dizer em qual estamos? Entre maio e agosto (ou até setembro) temos dez ou doze dias frios. Fora deles, os outros são bem parecidos. Em países como o nosso não há vantagem em observar horário de verão. Tanto que o Brasil é o único país equatorial do mundo que o adota hoje.
Parece discutível o argumento de que esse horário produz grande redução no consumo de eletricidade. Entre nós ele serve, mais que tudo, para garantir o funcionamento confiável do atual modelo energético. O governo visa afastar apagões que escurecem regiões imensas, uma vez que são interligadas. Ao retardar a ligação simultânea da iluminação de todas as cidades, consegue equilíbrio na distribuição do consumo em horário de pico, isto é, quando escurece.

Não entendo do assunto, mas tenho direito de pensar: com as colossais potencialidades de energia eólica e solar de que o Brasil dispõe, por que investir apenas (ou de forma quase exclusiva) na geração de eletricidade a partir da matriz hídrica? Tapando o ouvido à grita de gente séria e entendida, dirigentes do país parecem interessados só em explorar (ou degradar?) nossos fantásticos rios e seus ricos entornos. Ou seria sujeição à ganância de empreiteiras financiadoras de campanhas eletivas? É uma dúvida plausível. Perguntar não ofende, né?

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Honestidade - por padre Orivaldo Robles

Saiu em dezenas de publicações deste Brasil tão precisado de boas notícias. Deu até no Jornal Nacional. Prova de que o fato está fora dos padrões convencionais. É uma daquelas coisas que parecem impossíveis de acontecer por aqui. Que, contadas, as pessoas vão chamar de lorota. Mas não é. É pura verdade.
Aconteceu em Jales, cidade de 50.000 habitantes, no noroeste paulista, distante 590 km da capital do Estado. Quando de sua elevação a município, há mais de 60 anos, minha família morava lá. Na época, era apenas um montinho mal ajeitado de casas. Os moradores não iam além de poucos milhares. Ainda assim, porque seis vilarejos, espalhados em derredor, foram-lhe atribuídos como distritos a fim de assegurar população necessária ao seu novo status. Pois essa é a Jales, que, por esses dias, veio nos devolver a fé na pureza da raça humana, que ainda tem integridade, sim. Pelo menos, alguns dos seus representantes.
Deu-se que, ao lado de outro imbecil, um rapaz de 18 anos foi preso por ter assaltado um posto de combustíveis e uma farmácia. O pai, Dorivaldo Porfírio de Lima, servente de pedreiro, que sobrevive com pouco mais do que o salário mínimo e nem carteira assinada possui, procurou os donos dos estabelecimentos, com intenção de restituir a importância roubada. Assumiu a responsabilidade pela devolução dos 1500 reais correspondentes à parte do filho no duplo assalto. Esclareceu que, embora sua condição financeira não lhe permitisse quitar toda a dívida de uma só vez, estava disposto a saldá-la em dez parcelas. Como garantia, deixou assinadas notas promissórias correspondentes. Justificou: “Ninguém deve ficar no prejuízo por culpa do meu filho. Quando sair da cadeia, ele vai trabalhar para me pagar o que estou pagando em seu lugar”. O dono do posto mostrou surpresa: “Nunca vi isso em lugar nenhum. Muitos não pagam nem devendo, imagine quem não deve”.
A notícia levou-me a recordar outro senhor, morador da mesma Jales, lá nos anos da minha infância. Uma noite, “seu” Pascoal chegou a nossa casa trazendo pela orelha o filho Samuel. Obrigou-o a pedir desculpa ao pai pelo furto de algumas laranjas do nosso pomar. Samuel era colega meu e do Eraldo na escola e nas diversões infantis. Meu irmão e eu ficamos sem saber onde enfiar a cara. O pai argumentou com “seu” Pascoal que aquilo era traquinagem de criança. Mas com o homem não tinha acerto. Era intransigente sobre os valores éticos que impunha à família. Ainda lembro o fecho do episódio. No tribunal da nossa humilde sala, à luz bruxuleante da lamparina, “seu” Pascoal, rigoroso juiz, proferiu terrível sentença: “Prefiro um filho morto a um filho ladrão”. Pouco depois nos mudamos. Nunca mais vi nosso amigo Samuel. Nem dele tive notícia.
Mais de 60 anos separam os dois episódios. São dois pais cujos princípios pesam mais do que dinheiro, luxo, ostentação, prazer... Mais até do que a vida. Para eles, se falta honra, não existe vida. Apenas simulacro dela.
“Seu” Pascoal teve sorte de não viver em nossos confusos dias. Se agarrasse hoje o filho pela orelha, teria de se haver com o ECA, o Conselho Tutelar etc. – perigo que Dorivaldo não corre.

A lamentar que do naipe desses dois não sejam todos os homens e mulheres do Brasil. 

sábado, 10 de agosto de 2013

O Dom Jaime que conheci - por padre Orivaldo Robles

Com ele convivi 55 anos. Figura incrível que não lembro com tristeza. Dele, uma passagem dolorida e jocosa; outra séria. Ambas verídicas. Escrevi-as em 2006:
1. Primeiros anos da Diocese. Maringá não tinha água tratada. Dom Jaime apanhou terrível infecção intestinal, uma giardíase que o acompanhou por longos e sofridos anos. Para ele as visitas pastorais, que jamais deixou, passaram a ser um suplício. Perdeu a conta das vezes que, em capelas rurais onde estava crismando, ao necessitar de um banheiro, verificava que simplesmente não existia tal peça. Por desoladora experiência comprovou a triste verdade do que é relatado como anedota, mas pode bem ter acontecido. Lá no sertão baiano, segundo contam, ter-se-ia um bispo hospedado em casa de rico fazendeiro, senhor de muitas terras e gado, mas de cultura pouca e de hábitos rudimentares. Não vendo nos aposentos nenhum sinal de sanitários, delicadamente o bispo foi informar-se com o anfitrião. O fazendeiro, chamando-o fora, estendeu o braço e apontou: “Olhe, seu bispo, daqui até o Piauí o senhor use à vontade”. Por conta das humilhações sofridas, Dom Jaime desenvolveu verdadeira obsessão por banheiros nas residências dos padres. Sua casa atual, incluindo área de serviço e residência das irmãs, conta com “apenas” dezesseis. Quando lhe foi apresentada a planta da casa paroquial de Santa Maria Goretti, aos existentes ele mandou ajuntar outros três: a casa conta agora com sete sanitários. Diante da exigência do aumento do número de banheiros para a construção da futura casa paroquial de São Mateus Apóstolo, um dos membros da comissão estranhou: “Lá em casa tem sete pessoas e só um banheiro. Aqui, para um padre o senhor quer três.” Mas o bispo não arredou pé: “Ou constroem mais ou não autorizo a casa paroquial. Nem crio a paróquia” (“A Igreja que brotou da mata”, p. 223).
2. Antonio Facci, pioneiro de Maringá e escritor, observou, há não muito tempo, que Maringá se constitui em cidade diferente de todas as outras de igual porte. Não só pela exuberância de uma arborização que ainda preserva parte do verde da mata original. Não só pela pujança de seu comércio, que chegou a ostentar, faz algum tempo, o posto de segunda praça atacadista do Brasil, atrás apenas de São Paulo. Não só pelo número de universidades e cursos superiores, que hoje atraem estudantes do Brasil inteiro e de países vizinhos. Acima de tudo, Maringá é diferente porque, sessenta anos depois de nascida, mantém elevado nível de solidariedade, como acontecia entre os primeiros moradores. As dezenas de obras beneficentes, multiplicadas e visíveis por todos os cantos, refletem a marca de um sofrido começo, quando os habitantes daquela boca de mato cultivavam laços fortes de união, sob pena de sucumbirem às agruras do meio. Não se podia estiolar o espírito de família que os tornava não só unidos, mas responsáveis um pelo outro, e todos, pela cidade que era sua.

Em outros lugares esse calor de vida se perdeu. Não em Maringá. Por uma razão historicamente inegável, segundo Facci. Porque Maringá teve o privilégio de acolher um homem que lhe ensinou, pelo exemplo de anos seguidos, a abrir o coração para as necessidades do outro. Mais ainda: ele transmitiu uma lição que Maringá incorporou à sua experiência de vida: a lição de que o outro não é estranho, é irmão. Esse homem se chama Dom Jaime Luiz Coelho (id. p. 212).

sábado, 3 de agosto de 2013

O papa no Brasil - por padre Orivaldo Robles

Ainda por muito tempo se falará da visita do papa Francisco. Para os mais velhos ela lembrou a primeira visita de um papa ao Brasil. Foi a de João Paulo 2°, em 1980. Tudo era novidade então. A começar pelo beijo no solo do aeroporto, ao desembarcar, em 30 de junho. No espaço de 12 dias, ele percorreu 14 mil quilômetros e 13 cidades: Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Aparecida, Porto Alegre, Curitiba, Manaus, Recife, Salvador, Belém, Teresina e Fortaleza. Uma das mais longas de suas 207 viagens apostólicas, nos quase 27 anos de pontificado (1978-2005). Algumas foram curtas, para o interior da Itália. Assim mesmo, comparado aos predecessores, Karol Wojtyla viajou mais do que todos juntos, de São Pedro a João Paulo 1°. Nessa primeira viagem ao Brasil, aos 60 anos, esbanjava vigor de um atleta. Nascido e criado na Polônia, além de vida extremamente regrada, o tempo livre ele preenchia com a prática do alpinismo. Nenhuma surpresa, portanto, que exibisse um físico invejável. Numa dessas revistas de amenidades, que se folheiam em salas de espera de médico ou dentista, li, na época, declaração de uma socialite brasileira para quem ele seria um dos homens mais sexy do mundo. Que observação profunda, não?
Lá em casa, a primeira visita de um papa teve significado especial. Pouco antes, o pai sofrera um AVC. É uma doença chata, que também afeta o emocional, levando o paciente a chorar por qualquer motivo. Qualquer motivo, uma pinoia! Vá saber o que muda no íntimo do coitado. O pai sempre fora um leão diante de dificuldades. Agora, a todo o momento, enchia os olhos de lágrimas. Comendo ou bebendo, se, do canto da boca, lhe escorria comida ou bebida; se derrubava o garfo ou o copo, parava na hora e começava a chorar. Era uma humilhação sentir-se incapaz de atos rotineiros. Só com dificuldade entrava em automóvel ou alcançava o meio-fio da calçada. Eu tinha que lhe sustentar a perna, cuidando que não tropeçasse feito bêbado. 
Por isso, aquela a visita do papa lhe fez enorme bem. Foram 12 dias cheios de novidade e de intensa emoção. Ele passava diante da TV de manhã à noite. A Globo não mostrava outra coisa. Cobriu todos os passos do papa. De Marialva eu vinha ver o pai. Encontrava-o na salinha minúscula, sentado no sofá, de olhos fitos na TV. Lacrimejantes, quase sempre. Não conseguia ver o papa sem chorar. A mãe lhe dava, em vez de lenço, uma toalha de rosto.
Seu AVC não foi daqueles de aleijar. Ele recebeu bom atendimento médico. Além da terapia lacrimal da televisão. A seu modo, tudo funcionou. Menos de um ano depois, andou no caminhão Mercedes 1113 de um sobrinho. Sem ajuda de ninguém para subir ou descer.
Agora, na Jornada Mundial da Juventude, o papa Francisco fascinou a todos. Difícil comparar as duas visitas. Cada uma teve sua magia e sedução. O papa, por si, não muda ninguém. Nós é que precisamos mudar para uma vida de maior fraternidade.

Senti que o pai não estivesse ali na sala, na frente da TV. Estou certo de que, de novo, se desmancharia em lágrimas. Espanhol, não precisaria de tradução para os discursos feitos num castelhano de sotaque argentino. Como qualquer brasileiro, deixar-se-ia encantar por esse homem que, embora sendo o papa, demonstra a mesma simplicidade que um pobre lavrador, no sofá da sala, conversando diante da TV.

sábado, 20 de julho de 2013

O bom rabi e o cão - por padre Orivaldo Robles

Uma fábula oriental conta que, nos arredores de Jerusalém, várias pessoas distraíam-se a contemplar um cão morto, estirado no caminho. Mostravam nojo e desprezo, ao tempo em que emitiam opiniões sobre o motivo de o terem arrastado até ali. “Deve ter sido um daqueles cães vagabundos, que invadem quintais para roubar comida”, disse um. “Com esse pelo coberto de rabugem, bem se vê que foi um cão vadio, que nunca teve dono”, arriscou outro. Um terceiro emendou: “Vai ver, algum morador da redondeza o matou e abandonou-o aí para os corvos”. Essas e ideias de igual teor eram expostas em voz alta e sem disfarce. Foi quando se achegou um desconhecido. Seu rosto refletia luz invulgar, que atraía atenção e respeito. Estava claro que ouvira os comentários feitos. Lançou sobre o animal morto um olhar de piedade e arrematou com doçura: “Nenhuma pérola seria capaz de brilhar tanto como a brancura dos seus dentes”.
A admiração tomou conta até dos mais afastados. Voltaram-se todos para ele. E como outro grupo que, em diferente oportunidade, lhe tinha exigido a condenação de uma mulher surpreendida em adultério, cabisbaixos e envergonhados, um por um, começaram a retirar-se. Os mais velhos, na frente. Um jovem de cabeleira farta e barba eriçada arriscou o palpite: “Esse não será Jesus de Nazaré, o rabi de quem falam maravilhas? Quem, senão ele, veria qualidades até num cão morto”?
Conheço a fábula desde não sei quando. Na realidade, faz muito tempo. O texto apresenta, aqui ou ali, pequenas variantes. No entanto, é sempre o mesmo relato. Nunca lhe soube a origem até que, agora, ao pesquisar, vim saber que está no livro “Lendas do bom rabi”, de Malba Tahan, pseudônimo de Júlio César de Mello e Souza (1895-1974). Apaixonado por Matemática e pela cultura árabe, ele dignificou, como poucos, a carreira de professor, que exerceu durante a vida inteira.
Desculpe-me, inusitado leitor, andei divagando. A fábula vale pela sua moral. Não é fato verídico, porém aduz precioso ensinamento. Atual também.
No trânsito, nunca uma criança do veículo à sua frente lhe mostrou a língua? Calculo que você ficou sem graça. “Que eu fiz para merecer isso?”, deve ter-se perguntado. Ligue não, assim é nosso mundo. Sartre propôs que “o inferno são os outros”. Na sociedade agressiva e injusta em que vivemos, filhos são preparados para competir na vida adulta. Aprendem, desde cedo, a encarar os outros como adversários. Como concorrentes interessados em roubar aquela vaga na creche, no hospital, na universidade, no emprego, no trânsito...
“Quem é o meu próximo?” (Lc 10,29), pergunta-se no Evangelho. A sociedade atual não dá a mínima para a resposta do Mestre. Já tem a sua: “Próximo é o sujeito no qual devo pisar sempre. Ele não tem nenhuma qualidade boa. O próximo não presta”. Ele é a Geni da música do Chico Buarque. Ou pior.

É!... Perdemos na poeira do tempo aquilo que o bom rabi viveu e transmitiu. Para muitos a sua doutrina transformou-se num amontoado de conselhos para consolar perdedores. A História registra e admira os feitos dos que venceram. Dos senhores de povos e nações. Daqueles cujas conquistas se adubaram no ódio e na violência. A isso chamam civilização. Também dão o nome de progresso.