sexta-feira, 18 de maio de 2012

Comunicação para a Comunhão - por Dom Demétrio Valentini


Neste domingo a Igreja no Brasil celebra a Ascensão do Senhor. A data seria na quinta-feira. Mas para facilitar, a Igreja coloca a celebração no domingo subsequente. Não para diminuir sua importância, mas para ressaltá-la.
Vem se firmando uma tradição, ainda recente, de vincular a Ascensão com a comunicação. Para a Igreja, este domingo é o Dia Mundial das Comunicações.
Não é preciso muito artifício para justificar esta vinculação. Acontece que foi no dia da Ascensão que Jesus enviou sues apóstolos, para que fossem ao mundo inteiro anunciar a Boa Notícia que tinham vivido e testemunhado.
Dizemos de maneira tradicional que, naquele dia Jesus transformou seus discípulos em missionários. Poderíamos agora dizer, em termos de comunicação, que naquele dia Jesus transformou seus seguidores em repórteres da maior agência de notícias, que era o projeto divino de salvação, onde o Cristo tinha se envolvido por inteiro, e onde passava a engajar os que tinham estagiado com ele durante três anos.
A missão confiada aos apóstolos continua até hoje. Com uma importante diferença. Os repórteres atuais de Cristo, dispõem de muito mais recursos técnicos, que podem ser colocados ao serviço de suas reportagens, ampliando enormemente sua repercussão.
Dá para imaginar o que faria São Paulo se dispusesse de uma emissora de rádio, ou de um canal de televisão. Como se atreveu a falar no areópago de Atenas, com certeza iria se valer do microfone para ampliar sua mensagem.
Hoje assistimos a um frenético crescimento dos meios de comunicação, que, pelo visto, farão do celular a referência prática para capturar os destinatários. Neste rápido crescimento de possibilidades, permanece o grande desafio: como utilizar estes meios a serviço da verdadeira comunicação?
Os inícios do Concílio Vaticano II coincidiram com os inícios da conquista espacial. Naquela época nem se podia imaginar que a verdadeira conquista, não seria chegar à lua ou a outros planetas. Mas seria, isto sim, conquistar a terra e enredá-la com infindas mensagens instantâneas.
No seu discurso de abertura do Concílio, de maneira profética, João 23 já estava intuindo que, mesmo sem querer, o progresso iria provocar benefícios insuspeitados para a humanidade.
Disse ele: "No presente momento histórico, a Providência está-nos levando para uma nova ordem de relações humanas, que, por obra dos homens e o mais das vezes para além do que eles esperam, se dirigem para o cumprimento de desígnios superiores e inesperados”.
Foi o que aconteceu com a corrida espacial. No início da década de 60, o Presidente Kennedy lançou aos americanos o desafio de chegar na lua dentro daquela década. E chegaram, em 1969. Mas não imaginavam que a grande vantagem dos satélites lançados ao espaço seria revolucionar por completo os meios de comunicação, valendo-se dos satélites, que agora as parabólicas sintonizam sem problemas.
Lembro bem os limites da comunicação antes dos satélites. Em 1962, ano da abertura do Concílio, se realizava no Chile a copa do mundo. Nós estávamos em Roma. A grande façanha da televisão europeia era garantir que, 48 horas depois de terminado um jogo no Chile, as imagens da partida estariam sendo divulgadas na Europa!
A moderna tecnologia oferece tantas possibilidades. Como colocá-las a serviço da humanidade? Eis a questão!

sábado, 14 de abril de 2012

As dores da Páscoa - por padre Orivaldo Robles


Desde 2003 ouço dizer que três dores, se não são as maiores, seguramente estão entre as três mais terríveis que alguém pode experimentar. São a dor do parto, a cólica de rim e a neuralgia do nervo trigêmeo. Uma eu tenho certeza de que jamais sentirei. As outras duas conheço bem e não as desejo ao pior inimigo. A bem da verdade, não tenho inimigo. Eventualmente, alguém me causa irritação, intensa até, não nego, mas passageira. Não por virtude pessoal, mas por bondade de Deus, fui preservado de guardar rancor. Pois nem à pessoa mais irritante eu desejaria uma crise renal ou uma neuralgia do trigêmeo. 
Fui contemplado, na semana santa que passou, com manifestações frequentes daquilo que médicos e dentistas conhecem e denominam dor paroxística. E bota paroxismo nisso. Havia dias eu vinha sentindo sinais. Mas sou daqueles teimosos que buscam socorro só quando não aguentam mais. Não tive recurso senão cair no consultório de dois dentistas e ainda de um neurologista. Que, com carinho e competência, diagnosticaram meu problema. Trata-se de antiga neuralgia do trigêmeo que voltou. Desta vez, só do lado direito. Menos mal que há nove anos. Naquela oportunidade, a face inteira doía. Mastigar, falar, lavar o rosto, escovar dentes, pentear cabelos, fazer barba eram verdadeiras torturas. Agora dói apenas quando lavo o rosto, escovo dentes, mastigo ou falo. Estou no lucro, portanto. Embora sem motivo para comemorar.
Ofereci ao Senhor minhas pobres dores como modesta participação nos seus sofrimentos, que celebramos solenemente nestes dias. Quando surgem os espasmos, porém, não penso em outra coisa senão em gritar. É desagradável faltar às celebrações litúrgicas onde eu devia me fazer presente. Difícil também responder à atenciosa pergunta sobre como estou. Pessoas amigas mostram cara de piedade quando me escapam involuntárias contorções de dor. Formulam votos de melhoras. Que estão demorando.
Habituado à constituição de ferro com que, há sete décadas, a natureza me dotou, sempre respondi com um vigoroso não a quantas perguntas me foram até hoje dirigidas sobre eventuais problemas de saúde. Tenho razões para me considerar um privilegiado em se tratando de sanidade física e mental. Coração, fígado, rins, pulmões e outros órgãos nunca me deram motivo de preocupação. Sequer sou capaz de localizá-los dentro de mim. De repente, me descubro portador de um mal que me aflige e do qual quase ninguém ouviu falar. Que eu preciso explicar, a cada vez, para meu interlocutor entender de que se trata. Estou aprendendo a conviver com a certeza, agora comprovada, de que sou portador da debilidade humana que não poupa ninguém. Somos muito mais frágeis do que imaginamos.
Queira Deus me torne esse incômodo mais sensível ao sofrimento daqueles que vivem ao meu lado. Por mais pessimista que reconheçamos a expressão “vale de lágrimas” e nos recusemos a aceitá-la, difícil é não acreditar que algumas pessoas parecem ter entrado mais de uma vez na fila da distribuição das dores desta vida.  
A Páscoa, que acabamos de celebrar, nos traz a certeza de que um dos nossos, membro também desta pobre natureza humana, venceu todas as nossas misérias. Até a pior que existe, a morte. Só nele descobrimos razão para enfrentar os dissabores de uma vida por vezes extremamente dolorosa.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

As coisas antigas já se passaram


“Mal começava o domingo, a semana, lá vem as mulheres com flores e aromas, de passo em passo, de rua em rua. O Sol já havia surgido, Aleluia!”.
Mais uma vez celebraremos a Páscoa. Páscoa é sinal de vida. Páscoa é sinal de esperança. Páscoa é sinal de certeza e de vitória.
Quando Jesus percebeu que o caminho para Jerusalém poderia levar à morte ele não recuou. E por quê? Não que Jesus não tenha sentido aquele calafrio diante da possibilidade do sofrimento. Ele até pediu ao Pai que afastasse dele este momento. Ele só continuou sua caminhada porque tinha plena confiança no Pai e no seu projeto. Porque Ele sabia que o Pai era o Deus da vida. E o Deus da vida não deixaria que a morte prevalecesse.
E assim aconteceu. No terceiro dia Jesus reaparece aos seus, ressuscitado. “Ó morte, onde esta sua vitória?” Esse dom de Deus confirmava as palavras de Jesus: “Eu vim para que todos tenham vida e vida em plenitude”.
Toda a vida de Jesus foi um testemunho de vida. Vida que se manifestou na acolhida, no perdão, no carinho para com os sofredores e marginalizados, na oferta de vida a quem estava morto, na misericórdia, na denúncia das situações que impediam que a vida digna fosse valorizada.
E tudo isso reacendeu a esperança no coração dos seus discípulos. “Nunca vimos algo assim”. E quando, depois de verem o Mestre crucificado e sepultado, e sem esperança, voltam para casa, eis que algo novo acontece. Um fogo faz arder os corações e reacende a chama da esperança.
Por isso, Jesus ressuscitou. Uma mensagem clara de que “nada poderá nos separar do amor de Deus”. Nem a morte.
Como escreveu São Leão Magno, papa, “foi eliminada a ignorância da incredulidade, foi suavizada a aspereza do caminho, e o sangue sagrado de Cristo extinguiu o fogo daquela espada que impedia o acesso ao reino da vida. A escuridão da antiga noite cedeu lugar à verdadeira luz. O povo cristão é convidado a gozar as riquezas do paraíso, e para todos os batizados está aberto o caminho de volta à pátria perdida, desde que ninguém queira fechar para si próprio aquele caminho que se abriu também à fé do ladrão arrependido. Evitemos que as preocupações desta vida nos envolvam na ansiedade e no orgulho, de tal modo que não procuremos, com todo o afeto do coração, conformar-nos a nosso Redentor na perfeita imitação de seus exemplos. Tudo o que ele fez ou sofreu foi para a nossa salvação, a fim de que todo o Corpo pudesse participar da virtude da Cabeça”.
Por isso quando celebramos a cada ano a Páscoa, renovamos em nós a certeza de que a morte foi vencida. E que poderemos vencer todos os sinais de morte que continuam se apresentando no nosso meio.
Muitos deles são por falta de uma conversão pessoal de nossa parte: nosso egoísmo, nossa omissão, o materialismo... Precisamos nos esforçar mais e testemunhar mais eficazmente os valores do Reino de Deus. Precisamos superar a falta de esperança e acreditar que nossos pequenos gestos do dia-a-dia podem transformar as realidades. Não podemos ter medo. Não podemos deixar que a sedução pelos bens transitórios enfraqueçam em nós a busca e defesa dos bens eternos.
A Campanha da Fraternidade deste ano, com o tema “Fraternidade e Saúde Pública” serve de apelo para cada um de nós. Quanto ainda por fazer para que a vida e a saúde sejam preservadas com dignidade desde o seu início até seu declínio natural. Às vezes até parece ser muito diante de nossas capacidades. Mas nós fazemos o possível, e deixamos que o que parece impossível Deus fará.
Mas não podemos deixar passar esta oportunidade. A Campanha da Fraternidade está terminando, mas não o nosso compromisso com a vida, especialmente dos mais indefesos. E o que nos leva a continuar nossa luta é a certeza de que a morte não é a última resposta. É a vida que prevalece. É a vida que sai vitoriosa e nós podemos ser testemunhas disso.
Em cada encontro de nossos grupos de reflexão e oração, em cada ação de nossas pastorais e movimentos, uma semente de vida é plantada. O tempo que nós usamos dedicado à busca de mais justiça e dignidade nos será revertido em forma de abundante colheita.
E citando mais uma vez São Leão Magno: “Se andarmos pelos caminhos de seus mandamentos e não nos envergonharmos de proclamar tudo o que ele fez pela nossa salvação na humildade do seu corpo, também nós teremos parte na sua glória. Então se cumprirá claramente o que prometeu: ‘Portanto, todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante do meu Pai que está nos céus’ (Mt 10,32)”.
Vamos agradecer a Deus por mais um ano de celebrações que recordam a paixão, a morte e a ressurreição de seu Filho Jesus. Afinal, Ele testemunhou a verdade de suas palavras. Peçamos que estas celebrações renovem em nós o compromisso com a justiça, com a verdade, com a fraternidade, sinais eminentes da vitória da vida.
Assim como a vida se renova com a chuva após um período de estiagem, que sejamos renovados pela celebração da Páscoa do Senhor em nossos propósitos de fazer o bem a todos e “escolher sempre a vida”.
A todos uma Feliz e Santa Páscoa!

Padre Onildo Luiz Gorla Júnior
Vigário da Paróquia Nossa Senhora das Graças

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Eucaristia: centro da vida eclesial e do ministério presbiteral




A cada ano, durante a preparação próxima para a Páscoa, mais especificamente na Quinta-feira Santa, a liturgia nos propõe uma reflexão sobre o mistério da Eucaristia e sobre o os ministros ordenados.
Foi durante uma ceia pascal, a última ceia, que Jesus, reunido com seus discípulos, tomou o pão, deu graças, partiu e o distribuiu dizendo ‘Isto é o meu corpo’. Depois tomando o cálice repetiu o mesmo gesto dizendo ‘Este é o cálice do meu sangue’.
Segundo o papa João Paulo II na carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia “a Igreja recebeu a Eucaristia de Cristo seu Senhor, não como um dom, embora precioso, entre muitos outros, mas com o dom por excelência, porque dom dele mesmo, da sua Pessoa na humanidade sagrada, e também da sua obra de salvação” (11).
Celebrar a Eucaristia é, para o cristão, celebrar o memorial da morte e ressurreição do Senhor. Este acontecimento torna-se presente em cada Eucaristia.
E por ser o sacramento por excelência, a Eucaristia está colocada no centro da vida eclesial. Desde os inícios da Igreja, as primeiras comunidades já se reuniam em torno do ensinamento dos apóstolos, da escuta da palavra e da fração do pão.
Passados mais de dois mil anos, a Igreja continua a fazer memória do seu Senhor através do sacramento eucarístico. A Eucaristia continua a evocar as cenas daqueles últimos dias de Jesus. Desde sua agonia no horto, quando o sangue que escorria já havia sido doado em bebida na noite anterior. Na cruz, o corpo suspenso e entregue ao Pai, é o corpo entregue na Ceia de Jesus.
A Eucaristia revela um profundo amor. Um amor levado ao extremo da doação. Não há maior prova de amor que dor a vida por quem se ama. Toda a vida de Jesus foi marcada pela doação. Sua morte não poderia ser diferente. E num último gesto de amor Jesus faz de sua vida, seu corpo e sangue, presença amorosa na vida de cada cristão.
Mas a Páscoa de Cristo não inclui só a paixão e a Morte. Inclui também a Ressurreição. Daí que toda Eucaristia é memorial da ressurreição do Senhor. Só assim o pão eucarístico é o ‘pão da vida’ o ‘pão vivo’.
Mas a vida gerada por este pão não serve apenas para a vanglória particular de cada fiel. Esta vida tem gosto de doação, de serviço. Não nos esqueçamos que foi no contexto da ceia que Jesus deixou uma ordem aos seus discípulos: “ assim como eu fiz, façam vocês também”. Era o lava-pés. A doação da vida mostrada no concreto da vida.
Vale aqui, transcrever estas palavras do Papa João Paulo II tiradas da carta citada acima: “Muitos são os problemas que obscurecem o horizonte do nosso tempo. Basta pensar quanto seja urgente trabalhar pela paz, colocar sólidas premissas de justiça e solidariedade nas relações entre os povos, defender a vida humana desde a concepção até ao seu termo natural. E também que dizer das mil contradições dum mundo ‘globalizado’, onde parece que os mais débeis, os mais pequenos e os mais pobres pouco podem esperar? É neste mundo que tem de brilhar a esperança cristã! Foi também para isto que o Senhor quis ficar conosco na Eucaristia, inserindo nesta sua presença sacrificial e comensal a promessa duma humanidade renovada pelo seu amor. É significativo que, no lugar onde os Sinópticos narram a instituição da Eucaristia, o evangelho de João proponha, ilustrando assim o seu profundo significado, a narração do ‘lava-pés’, gesto este que faz de Jesus mestre de comunhão e de serviço (cf. Jo 13,1-20). O apóstolo Paulo, por sua vez, qualifica como ‘indigna’ duma comunidade cristã a participação na Ceia do Senhor que se verifique num contexto de discórdia e de indiferença pelos pobres (cf. 1Cor 11,17-22.27-34). Anunciar a morte do Senhor ‘até que Ele venha’ (1Cor 11,26) inclui, para os que participam na Eucaristia, o compromisso de transformarem a vida, de tal forma que esta se torne, de certo modo, toda ‘eucarística’. São precisamente este fruto de transfiguração da existência e o empenho de transformar o mundo segundo o Evangelho que fazem brilhar a tensão escatológica da celebração eucarística e de toda a vida cristã: ‘Vinde, Senhor Jesus!’ (cf. Ap 22,20) (EE 20)
Na quinta-feira pela manhã – ou outro dia próximo à Páscoa – celebra-se a Missa do Crisma e renovação das promessas sacerdotais. Geralmente realizada na igreja-mãe da Diocese, a catedral, a Missa do Crisma reúne os presbíteros em torno de seu bispo manifestando aquela comunhão que deve haver entre eles.
Se a Eucaristia é o centro da vida eclesial, para os presbíteros ela se reveste de um sentido muito especial: é centro do seu ministério. É verdade que o serviço que o presbítero presta à Igreja e na Igreja não se limita à celebração eucarística. Comporta desde o anúncio da Palavra, à santificação das pessoas através dos Sacramentos até a condução do povo de Deus na comunhão e no serviço. Mas a Eucaristia é o ponto irradiador e o ponto para o qual tudo conduz. O ministério presbiteral nasceu com a Eucaristia no Cenáculo.
A ação eucarística conduzida pelo presbítero tornará presente em cada geração cristã e em cada canto da Terra, a obra realizada por Cristo. Onde quer que for celebrada a Eucaristia, nesse lugar, tornar-se-á presente o sacrifício da Calvário. Lá estará presente o próprio Cristo, Redentor do mundo.

Pe. Onildo Luiz Gorla Júnior


quarta-feira, 21 de março de 2012

A Corrupção - por Padre João Batista Libânio


Há distância abissal entre o fato da corrupção e a "cultura da corrupção”. Enquanto existirmos, nós, seres humanos, seremos sempre tentados pelos três famosos deuses do dinheiro, do sexo e do poder. E enquanto estivermos nesse vale de contradições da história humana, uns mais, outros menos, todos pecamos. S. Paulo, de modo enfático, conclui, depois de ter traçado o quadro de pecado dos pagãos e dos judeus, símbolos de toda a humanidade, que "todos nós pecamos”. Mas não para aí. Onde este pecado grassou abundantemente, aí também a graça salvadora de Cristo atua ainda mais abundantemente. Todo esse cenário escuro existe em vista de fazer realçar o esplendor do amor salvador de Deus em Jesus Cristo.
Por isso, o fato do pecado, o dado da corrupção nos horrorizam. Sempre houve, sempre haverá. Mas, também sempre está o chamado de Deus à conversão, oferecendo a superabundância da graça.
A situação se degrada quando a corrupção se torna cultura. A cultura dita as regras do procedimento, cria comportamentos padronizados. Permite que as pessoas se entendam entre si. Representa para elas a realidade. Torna-se algo normal, corriqueiro. Oferece significado para a vida da sociedade. Revela a lógica dos procedimentos do corpo social. Ora bem, se a corrupção se transforma em cultura, acontece que todo mundo não a estranha, ninguém se indigna contra ela. Espera-se que todos assim o façam. Colocadas em situação de provocação a ela, as pessoas respondem normalmente deixando-se corromper ou corrompendo outras por meio de suborno, de pistolão, de prestígios alegados.
O mais grave da "cultura da corrupção” se revela na perda do senso ético da sociedade. Ninguém já considera tal comportamento como desviante. Assim desde o menino que está a guardar os automóveis no estacionamento que tenta pressionar as pessoas ameaçando arranhar-lhes o carro até os setores mais graduados da sociedade que se vendem às empreiteiras para elegerem-se e enriquecerem-se. Há diferença de graus. E como? Lá em cima, a corrupção rola em alta escala. Aqui em baixo, são minguados reais. Mas grassa idêntica enfermidade cultural. Prevalece o comportamento geral de que cada um aproveite quanto puder, não importa o meio. Domina a expectativa de enriquecimento rápido e fácil a fim de resolver definitivamente a própria situação econômica.
Em vez da cultura da laboriosidade, do ganho módico, gradativo, poupado, busca-se a riqueza em maior abundância possível, aproveitando todas as situações. Ora, cultura se modifica "culturalmente”. Cabe, portanto, reconstruir o tecido da sociedade a partir de outros comportamentos, outras expectativas, outros valores em duplo movimento. Antes de tudo, trata-se de desestimular a corrupção por todos os meios, punindo simbólica e realmente os corruptos. Em seguida, busca-se criar consciência ética de honestidade, de respeito a si, de dignidade de modo que a corrupção se torne comportamento anômico, anômalo, não reconhecido pela sociedade. Os fautores sentirão vergonha, esconderão o máximo possível, temendo que ela venha à luz. Então se cumprirão as palavras de Jesus: "Todo aquele que faz o mal odeia a luz, com receio de que as suas obras sejam desmascaradas” (Jo 3,20). E na sociedade então acontecerá que "aquele que age segundo a verdade vem à luz para que suas obras sejam manifestadas, já que tinham sido realizadas em Deus” (Jo 3, 21)

sexta-feira, 16 de março de 2012

Há quinze anos

Boas ou sofridas as memórias nos acompanharão por toda a nossa vida.
Há quem afirme que não se vive do passado. É verdade. Um passado que constantemente retorna para assombrar precisa ser exorcizado e acolhido com fraternidade para se tornar um irmão a mais no caminho da vida.
Porém, lembrar, fazer memória, é próprio de nossa humanidade.
E é assim que celebro a data de hoje. Há quinze anos, dez horas da manhã, na cidade de Floraí-PR, estávamos muitos amigos e irmãos na fé reunidos para minha ordenação presbiteral. Enfim chegara o momento tão esperado.
Foi um momento de fé, mas de ansiedade, expectativa, e por fim, de realização.
Eu sabia que a caminhada não chegara ao seu termo. Mas era mais uma etapa superada.
Aguardava ansioso a possibilidade de presidir minha primeira missa, celebrar os primeiros sacramentos, assumir minha primeira paróquia.
E, com o tempo, tudo isso foi acontecendo. E quanto êxtase a cada passo.
Passados quinze anos já percebo muitas marcas do tempo. Não sou mais aquele jovem sem experiência e com a convicção  de possuir muitas verdades. Sou um cristão adulto com a convicção de que há muitas verdades a serem descobertas e colocadas em prática.
Tenho consciência de minhas falhas e por elas peço perdão. Algumas delas insistem em manter-se no palco, sob a ribalta, mas há uma Luz muito mais forte que coloca todos os atores nos seus devidos papéis. E assim, a vida segue seu curso.
Agradeço tudo que recebi ao longo desses anos. Quantas amizades construídas, quantas experiências vividas na partilha da fé, quantos bons momentos... O Senhor prometeu, o Senhor cumpriu: cem vezes mais já neste mundo.
Obrigado a todos que compartilham este momento comigo com sua presença, com sua oração. Obrigado Deus, por confirmar a cada dia a minha vocação. "Para fazer, não a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou" Jo 6,38.

terça-feira, 13 de março de 2012

A questão do aborto - por Dom Odilo Scherer



De novo, em pauta a questão do aborto. Estamos num ano eleitoral, os partidos vão costurando suas alianças e, como não podia deixar de ser, na pauta dos ajustes também entram questões polêmicas, em discussão há mais tempo pela opinião pública e também no Congresso Nacional.
Há quem gostaria que certos temas delicados não estivessem nos grandes debates político-eleitorais, talvez para não exigir uma tomada de posição clara perante os eleitores; prefere-se, então, qualificá-las como “questões religiosas”, das quais o Estado laico não se deveria ocupar, nem gastar tempo com elas na discussão política... Não penso assim.
Decisões sobre a vida e a morte de outros seres humanos, sobre o modelo de casamento, família e educação, sobre justiça social e princípios éticos básicos para o convívio social são questões do mais alto interesse e relevância política. Dizer que são “temas religiosos” significa desqualificar a sua discussão pública, relegando-os à esfera da vida privada, ou ao ativismo de grupos voltados mais para interesses particulares do que para o bem comum. Tirar da pauta política esses temas também poderia sugerir que pessoas sem religião não precisam estar vinculadas a valores e convicções éticas, o que é falso e até ofensivo.
Preocupo-me quando ouço que, no Brasil, a cada ano são realizados mais de 1 milhão de abortos “clandestinos” e que tantas mil mulheres (número bem expressivo!) morrem em consequência de abortos mal feitos! Há algo que não convence nesses números e afirmações. Sendo clandestinos, como pode alguém afirmar com tanta certeza dados tão impressionantes? Maior perplexidade ainda é suscitada quando isso é afirmado por uma autoridade representativa do Estado, mostrando que tem, supostamente, conhecimento seguro de uma violação aberta e grave da lei e nada fazendo para que ela seja respeitada para preservar tantas vidas! De fato, continua valendo a lei que veta o aborto indiscriminado no Brasil.
Esses números assombrosos ou estão pra lá de superdimensionados e manipu-lados para pressionar e atingir, de maneira desonesta, objetivos almejados, ou, então, alguém está faltando com seu dever de maneira consciente e irresponsá-vel, deixando que a lei seja violada impunemente, em casos tão graves, nos quais vidas humanas inocentes e indefesas são ceifadas, às centenas de milhares, ou até na conta dos milhões!
É lamentável a morte de cada mulher em consequência de um aborto clandesti-no e mal feito. Lamentável também, e muito, é a sorte trágica de cada ser humano que tem a sua vida tolhida antes mesmo de ter visto a luz. Se há um problema de saúde pública a ser encarado, a solução não deveria ser a instrumentalização dessa tragédia humana para promover a legalização do aborto. Dar roupagem legal à tragédia curaria a dor e faria sossegar a consciên-cia? Questão de saúde pública deve ser enfrentada com políticas voltadas para a melhoria da saúde e das condições de vida, e não para a promoção da morte seletiva. Uma campanha de conscientização sobre a ilegalidade das práticas abortistas protegeria melhor a mulher e o ser que ela está gerando. Haveria muito a fazer para alertar contra os riscos do recurso às clínicas – nem tão clandestinas – de “interrupção da gravidez”. Alguém conhece alguma campanha do governo ou alguma política pública para desestimular práticas abortivas contrárias à lei e arriscadas para a saúde da mulher? Não seria o caso de fazer?
Está em curso a discussão sobre a reforma do Código Penal Brasileiro; em muitas coisas, certamente, ele deverá ser revisto e adequado. Chama, no entanto, a atenção e merece uma reflexão atenta da sociedade a proposta relativa ao artigo 128, sobre novos casos de aborto “não puníveis”, além dos dois casos já previstos – risco de vida para a mãe e gravidez resultante de estupro (cf. http:/migre.me/845Dp).
No inciso I do artigo 128, propõe-se que não haja crime “se houver risco de vida ou à saúde da gestante”. A alusão ao “risco à saúde da mulher” é absolutamente vaga e, por si só, já ofereceria base para a universalização do aborto legal.
No inciso II, propõe-se que não haja crime se a gravidez resultar de “violação da dignidade sexual, ou do emprego de técnica não consentida de reprodução assistida”. O que se pretende qualificar como “violação da dignidade sexual”? O delito, neste caso, não aparece configurado e poderia ser facilmente alegado, sem que ninguém fosse capaz de comprovar a real ocorrência dos fatos. Além disso, a “reprodução assistida” já está legalizada e regulamentada no Brasil?
No inciso III do mesmo artigo, propõe-se que não haja punibilidade quando “comprovada a anencefalia, ou quando o feto padecer de graves e incuráveis anomalias que inviabilizem a vida independente, em ambos os casos atestado pelo médico”. Além da anencefalia, já em discussão no Supremo Tribunal Federal, acrescentam-se outras “graves e incuráveis anomalias”, o que é preocupante, pois isso abriria as portas para uma inaceitável, do ponto de vista ético, “seleção pré-natal” dos indivíduos considerados “aptos” a viver e o descarte de outros, considerados “inviáveis”.
É o controle de qualidade aplicado ao ser humano, já praticado em tempos passados por regimes condenados quase universalmente por suas práticas eugênicas. Vamos legalizar isso no Brasil agora?! No inciso IV, propõe-se que, “por vontade da gestante até a 12.ª semana de gestação, quando o médico constatar que a mulher não apresenta condições psicológicas de arcar com a maternidade”, o aborto poderia ser praticado sem penalidades. Passa-se ao médico o peso da decisão sobre a vida ou a morte de seres humanos. Acho isso absolutamente inadequado!
É preciso refletir muito, para não legalizar a banalização da vida humana.

Fonte: http://www.comshalom.org/blog/carmadelio/29257-cardeal-de-sao-paulo-se-manifesta-sobre-a-questao-do-aborto em 13.03.12

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Quaresma hoje - por padre Orivaldo

Quem viveu no Brasil rural do século passado lembra o pavor que a Quaresma incutia no povo simples com a ameaça do lobisomem. Havia muitas crendices, que hoje provocam risos até em crianças. Por isso, gente desinformada, às vezes, dirige críticas ferozes à prática religiosa. Nada a ver; fé é uma coisa, superstição é outra. Apesar de alguns não gostarem, religiões sérias firmam-se em bases sólidas. Não se identificam com a ignorância ou a malandragem que, infelizmente, se pode ver aqui e ali.

A Quaresma nasceu do antigo catecumenato, período de preparação ao batismo. Para receber a vida nova da Páscoa, os candidatos deviam abandonar o modo pagão de viver. Eram instados à conversão, isto é, à mudança de caminho. Esse é o sentido original de penitência. Com o passar dos séculos, o enfoque se perdeu. O povo passou a se contentar com a mera observância de ritos exteriores. No Concílio Vaticano 2° (1962-65), a Igreja do Brasil retomou a penitência como tarefa da vida real. Criou a Campanha da Fraternidade (1964), indicando situações existenciais do nosso povo, que precisam mudar. O cristão tem o dever de se tornar agente dessa mudança.

Religião se pratica com a mão na massa. “Somos responsáveis uns pelos outros” (lema da CF-1966), “somos todos irmãos” (CF-1967), temos que “crer com as mãos” (CF-1968). Penitência é nos empenharmos na erradicação de tudo o que causa sofrimento aos nossos irmãos. Nestes 49 anos, a CF focalizou água, alimento, comunicação, desemprego, ecologia, ecumenismo, educação, encarcerados, excluídos, família, fome, justiça, juventude, menores abandonados, migrantes, moradia, mulher, mundo do trabalho, negros, política, povos indígenas, segurança, vida humana, violência etc. Neste ano, o tema é saúde, preocupação da maioria dos brasileiros.

Nestes dias comenta-se a Lei da Ficha Limpa. Embora ninguém lembre, ela nasceu de iniciativa da Igreja Católica. O Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (www.mcce.org.br), que reúne 51 entidades, reconhece: “A Campanha da Fraternidade de 1996, que teve por tema ‘Fraternidade e Política’, contribuiu para aflorar a criação do MCCE, porque, posterior à campanha, a Comissão Brasileira de Justiça e Paz (CBJP), órgão vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), lançou o Projeto ‘Combatendo a corrupção eleitoral’, em fevereiro de 1997”. A Igreja Católica participou na implantação das duas únicas leis de iniciativa popular (Lei 9840/1999, da compra de votos, e Lei Complementar 135/2010, da ficha limpa). Quase 90% dos milhões de assinaturas enviadas ao Congresso Nacional, nas duas oportunidades, foram recolhidas às portas das igrejas paroquiais espalhadas por todo o Brasil.

A gente não está contando vantagem. Não é praxe católica fazer publicidade. A mão esquerda não deve saber o que faz a direita (cf. Mt 6,3). Mas não custa, de vez em quando, divulgar o que alguns ignoram ou fazem questão de omitir. Reconhecemos nossos erros de ontem e de hoje. Pedimos sinceramente perdão. Mas somos responsáveis por muito mais do que Inquisição e pedofilia. A primeira se deu em contexto histórico-cultural bem diferente do atual. Quanto à segunda: entre os 20.000 padres do Brasil, foram achados menos de 40 pedófilos (nem 0,02%). É justo, a todo instante, sermos todos acusados desse crime?

Padre Orivaldo Robles

Vigário da catedral Nossa Senhora da Glória - Maringá