Blog de orientação cristã católica. Conteúdos variados numa perspectiva cristã.
sábado, 4 de maio de 2013
Nossa violência de cada dia - por padre Orivaldo Robles
“Quando eu era criança pequena”, não lá em Barbacena, mas no Estado de São Paulo, ouvia contar maldades atribuídas a Dioguinho, Lino Catarino ou Aníbal Vieira, o Lampião paulista, que sobreviveram no ideário popular como desafiadores da lei e da ordem. Lei e ordem que, na sua época, não deviam ser grande coisa. No sertão de Rio Preto, Triângulo Mineiro ou Mato Grosso do Sul, no início do século passado, viver era quase ter a espada de Dâmocles sobre a cabeça. Pouca gente, muito mato, fazendas se abrindo, estradas e comunicações rudimentares... – o que não faltava eram arruaceiros e matadores. Claro que o povo exagera quando conta seus causos. Para Menotti del Picchia, “cada ‘valentão’ se multiplica, cataliza façanhas alheias, deforma-se sentimentalmente a tomar atitudes vingadoras de cavaleiro andante e a enriquecer-se com o halo quixotesco de façanhas inidentificáveis”. Nem sempre dá para separar a história da lenda. Contudo, é certo que houve homens ignorantes, violentos, para quem matar não produzia desconforto nem remorso. Julgavam-se acima do bem e do mal. Não conheciam outra lei senão a própria vontade, que impunham à força.
Período difícil, de pouquíssima cultura e brutalidade às pampas. Por sorte, ficou lá atrás. Só antigos recordam peripécias que não presenciaram, mas ouviram de outros mais antigos ainda. “Que bom”, pensam, com certeza, os jovens de hoje. “Eu não me acostumaria com tanto atraso e violência. Ainda bem que nasci em outro tempo. Hoje não se vê mais isso”.
Será que não? E aquilo que observamos, todos os dias, bem diante do nariz? Não digo lá nos grotões inalcançados pelo progresso, mas nos centros que acreditamos desenvolvidos. Não é justamente nas grandes cidades, com mais numerosos recursos à disposição, que acontecem os mais bárbaros crimes? Quem ia pensar que o ser humano fosse capaz das insânias que os noticiários relatam? Antigamente um crime grave permanecia durante décadas como exemplo acabado de horror. Não se repetia. Hoje, a toda hora se conhece delito mais torpe que o anterior. Alguém é capaz de prever aonde chegará a maldade humana? Que delito vamos conhecer mais pavoroso dos que os já noticiados?
Será que uma pessoa se crê segura numa cidade de porte médio? Nem precisa ser São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Salvador, Curitiba... Inclusive dentro de casa. Fora, na rua e à noite, nem pensar. Uma vez, no final dos anos 60, dois amigos e eu, que há muito não nos víamos, ficamos conversando num bar de São Paulo até às três da madrugada. Depois caminhamos tranquilamente, por ruas desertas, até ao apartamento deles. Hoje alguém arriscaria fazer isso?
Os valentões do passado eram poucos e facilmente identificáveis. Praticavam barbaridades quando bêbados ou para mostrar valentia. Seu código de ética bandida não admitia ataque a mulher, idoso ou criança. Sua maldade ia até certo limite. Agora, bandidos encontram-se aos milhares. De todas as idades, aparências e origens. Nem a pior brutalidade os acalma. Até onde vai a sanha de um delinquente com uma arma na mão?
É esse o tal progresso, a tão celebrada modernidade a que chegamos? Que diabólico poder foi entregue aos donos das ruas para que mantenham os cidadãos dentro de casa tremendo de medo? Será que não existe remédio para essa ferida aberta na carne da nossa sociedade?
sábado, 20 de abril de 2013
Um dia para o índio - por padre Orivaldo Robles
Nas décadas de 80 e 90 fui, algumas vezes, com uma família amiga ao Mato Grosso, perto do Pará, em férias de poucos dias. A gente aproveitava julho, quando não chovia. De uma feita, não sei por que, viajamos em janeiro. Então descobri a que, naquela região, chamam inverno. Dia sim, outro também, amanhece um céu azul que dá gosto. Quente como tampa de panela. Logo, logo começa a nublar. Pelas duas da tarde, pouco mais, despenca um aguaceiro de não se enxergar um metro à frente. Não demora e o céu limpa de novo. O dia termina num pôr do sol de pintura. Por que viajar para o Mato Grosso nas férias de meio do ano? É que boa parte dos familiares mudou para aquelas lonjuras. O casal, ambos professores, todo ano, levava as crianças a visitar avós e tios. Os de lá e os daqui mostravam prazer em que eu também fosse. Quiçá para fazer lastro no carro. Ou para ajudar a dirigir. Mais de dois mil quilômetros ao volante, sem parar, ninguém merece. Estou brincando. Amigos queridos, eles apreciavam, muito além do que vale, a minha companhia. Na época, depois de Cuiabá a BR 163 era chão puro até Santarém (PA). De tanto em tanto, desvios e máquinas. O solo preparava-se para o asfalto.
Deu-se que na volta de uma dessas viagens, horas depois de muito rodar, paramos naquilo que se esforçava para imitar um posto de combustível. Por felicidade, encontramos gasolina. Ao lado, uma borracharia e um bar. Não era lá grande coisa, mas para nossa goela seca bar queria dizer água gelada, refrigerante ou sorvete.
Quando entrei, medonha figura no canto do balcão me assustou. Senti na espinha um frio de morte. Era só um pobre índio. Eu não imaginava pudesse haver índio daquele tamanho. Um metro e oitenta de ossatura quase exposta. Um gigante para minha noção de índio brasileiro. No rosto, como numa tela suja, marcas de um sofrimento que não tem fim. Um semblante frio, inexpressivo, sem vida. Alheio a tudo, ele fitava o horizonte como buscando uma razão para viver. Eu não sabia se o encarava ou se dele afastava os olhos. Que fazia ali sozinho, descalço, vestido apenas de calção e segurando um arco, aquele espécime dos altivos povos, senhores durante milênios de todas estas terras?
Veio-me, de repente, um estranho impulso de chorar. Não recordo, mas talvez me tenham umedecido os olhos. Que dores e misérias de ninguém sabidas carregava aquele infeliz no corpo ossudo queimado de sol? Lá no fundo do espírito humilhado? Ele e todos os indígenas do Brasil? Para um país que só avalia indicadores econômicos aquele gigante mudo nada significava. Que viera fazer num bar de beira de estrada? Quem sabe, vender suas manufaturas para levar à aldeia alguns míseros tostões. Será que brancos – sempre espertos em zombar de fracos – não o embebedaram e, fartos de se divertirem à sua custa, não sumiram rindo alto e comentando a patuscada de mau gosto?
Na infância, eu conheci um Dia do Pan-americanismo. Dia do Índio, não. Hoje, as crianças voltam da escola com o rosto pintado. Às vezes, com um falso penacho na cabeça. É o que aprendem sobre índios. Para os adultos, índio é atrasado, indolente, traiçoeiro, qualidades propagadas pelos “civilizados”. Ninguém ensina que, por milhares de anos, cuidada pela cultura deles, nossa terra se conservou saudável, produtiva e farta. Bastaram quinhentos anos de uso pelos “civilizados” – que dela se apossaram a força – para atirá-la na devastação que conhecemos.
segunda-feira, 15 de abril de 2013
Casamento e tempo - por padre Orivaldo Robles
“Não podemos esquecer o tempo. Ele também passa pelo corpo que envelhece. A garota que conheci com vinte anos não é a mesma aos setenta. Existem ainda as enfermidades. Mas o mundo atual não quer que vejamos. Todos são jovens, bonitos, sem doenças. Ora, isso é contrário à experiência humana de todos os dias. Na hora da verdade, basta atravessar a rua para ver que a realidade é outra. Isso acontece porque há um materialismo de fundo que destrói o tempo. Porque não há vida interior e relação com Deus. A juventude e a obsessão com o corpo querem estar no mesmo nível que o espiritual. Se o corpo estabelece as regras de vida, tudo muda. A isso se acrescentam as enormes dificuldades econômicas que as famílias enfrentam; os problemas no trabalho, o desemprego, e até mesmo o fato de que o casal chega a casa exausto do trabalho. No final do dia, cada um viveu uma experiência diferente e não é possível compartilhá-la, porque a sociedade não permite. Tudo isso tem um preço, que é pago pela família. É preciso refletir sobre todos esses condicionamentos sociais da vida familiar”.
Quem passou dos setenta endossa as colocações acima, feitas por Georges Cottier, cardeal e teólogo pontifício emérito. É incrível com que brutalidade o tempo impõe ao nosso corpo transformações que, na infância e juventude, sequer em sonho calculávamos que aconteceriam. Até admitíamos que a vida é passageira, que a idade provoca mudanças. Mas não sabíamos, como agora, o que é suportá-las, quando chegam e se instalam.
Considerando como, hoje em dia, as pessoas vivem, eu me pergunto: qual futuro haverá para as famílias? Não sou maniqueu nem alarmista. Mas, pelo que venho observando, só vale o desfrute do momento. Sôfrego, intenso, arrebatador. Total e definitivo, como se o mundo fosse acabar no minuto seguinte. Como se ali residisse a única chance de ser feliz. E que, se for perdida, não voltará a se apresentar.
Ninguém de juízo perfeito ignora o risco de moldar a vida por esse critério. Infelizmente, em nosso meio há verdadeiro pavor de desagradar. De levar a pecha de moralista ou chato. Para não criar caso com quem vive ao seu redor, a maioria se cala. Falta coragem de apontar os riscos a que se expõem as pessoas. Mas está havendo um exagero nas preocupações com a aparência. Parece obrigatório que o corpo se mostre sempre jovem e atraente. Ainda que à força de intervenções e truques que a tecnologia não se cansa de inventar. Há pessoas que vivem unicamente em função de um frescor e de uma beleza do corpo, que creem possíveis de se manterem eternas. Tolice. Somos dependentes do tempo. Cada um lhe paga a obrigatória taxa. Ilude-se, além de fazer papel ridículo, quem se esfalfa para aparentar vinte anos menos. É preciso admitir que nós valemos por aquilo que somos. Pela nossa grandeza interior, não pelo visual bonito. A embalagem pode agradar, mas o produto é que conta.
Construir uma família exige sabedoria. Sem ilusões, que já destruíram muitos sonhos. Os que se encantam com a atração de um corpo jovem precisam ter presente que essa visão não vai durar sempre. Há que fundamentar seu amor em algo bem mais sólido, de consistência muito maior. Numa vida a dois, o tempo é um elemento a considerar, sob pena de fracasso.
Como o de tantos casais, que tristemente se arrastam por aí.
sábado, 6 de abril de 2013
O mais importante bem - por padre Orivaldo Robles
Eventualmente, quando o tempo me permite, acompanho o Jornal do Meio Dia. Esforço-me para não ser muito ignorante sobre o que rola por esse mundão de Deus. E me vejo mais assustado a cada dia. Tenho medo de que nos familiarizemos com brutalidades e safadezas. Que, no fim de algum tempo, venhamos a achar tudo normal. Que nos rendamos ao fatalismo de admitir que hoje o mundo é assim mesmo. Que não adianta lutar contra. Que nada pode ser feito. Boa parte das pessoas parece já concordar com isso.
Neste último dia de março, em Curitiba, uma senhora com três crianças, ao tomar um ônibus articulado da linha Pinheirinho-Praça Rui Barbosa, notou que o veículo tinha fechado a porta e arrancado antes que a terceira menina houvesse embarcado. Desesperada, pediu ao motorista que parasse. Enquanto isso, da janela, gritava à filha que esperasse no ponto até que a mãe voltasse para buscá-la. Vários passageiros se revoltaram com o condutor. Dois rapazes conversaram com o repórter da TV. Um disse que advertiu o motorista, dele obtendo, como resposta: “Ah, que se dane!”. Ao outro ele argumentou que tinha horário a cumprir e estava atrasado. Já fora anteriormente repreendido pelo fiscal da empresa por atender a passageiros. Como o jovem insistisse, freou o coletivo e disse asperamente: “Então venha você mesmo aqui dirigir”. Indignados, os jovens desceram com a mulher na parada seguinte. Postaram queixa na internet. Obtiveram compartilhamento de milhares de internautas.
Os responsáveis pelo transporte coletivo na Capital vieram a público, nas redes sociais, oferecer as explicações de praxe. Falaram que verificarão o caso, que os funcionários têm normas rígidas para tratar o público etc. Quanto à criança, esclareceram que “tem cerca de 10 anos e não 5, como informado anteriormente. Ela ficou junto ao cobrador da estação-tubo, que tomou conta dela durante os 7 minutos que a mãe levou para retornar”. Com isso se restabeleceu a convivência cidadã entre prestadores de serviço e destinatários, que nada mais são que a plebe inculta e pobre, pois não?
Gente, que mundo estamos construindo? Que bem precisamos defender como o mais importante? Será o lucro, o prazer, o prestígio, o luxo, a vantagem sempre crescente de quem manipula os cordéis do mercado? Que relações norteiam nossa vida em sociedade? A cada dia sabemos de novos absurdos. Ainda não diminuiu a dor pelas mortes na boate Kiss, de Santa Maria, e vêm novas mortes na região serrana fluminense, mortes na queda do ônibus da Linha Vermelha, mortes, mortes...
Ah, nossa Curitiba festejada por tantos que gostam de aparências, pelo menos você não nos desiluda. É pena descobri-la tão diferente daquela de 1958. Quando a vi, pela primeira vez, a bordo de um DC3 da Real Aerovias, você se mostrava linda com os raros prédios agrupados no centro e os pinheiros brilhando ao sol da manhã. Cabia-lhe bem o título de Cidade Sorriso. Percebeu como ninguém mais a chama assim?
Não bastam moradores ricos, que se vestem com elegância europeia. Nem eficiente sistema viário, modelo para Brasil e Exterior. Uma cidade é bem mais do que isso. Você se fez lindamente moderna. Mas também se converteu na sexta capital estadual mais violenta do Brasil. Aonde foram parar amor e respeito ao ser humano, bem maior de qualquer cidade? Por suas ruas circulávamos sem medo. Até sorríamos uns para os outros. Por que as coisas não são mais assim?
segunda-feira, 25 de março de 2013
CONSIDERAÇÕES SOBRE A NOTA DO CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA A RESPEITO DO ABORTO - por Dom João Petrini
Causou surpresa à sociedade brasileira a decisão tomada pelo Conselho Federal de Medicina, durante o I Encontro Nacional dos Conselhos de Medicina, favorável à interrupção da gravidez até a 12ª semana, como prevê a proposta do novo Código Penal, em discussão no Senado Federal. As imediatas reações contrárias a esse posicionamento demonstram a preocupação dos que defendem a vida humana desde sua concepção até a morte natural. Merece, por isso, algumas considerações.
O drama vivido pela mulher por causa de uma gravidez indesejada ou por circunstâncias que lhe dificultam sustentar a gravidez pode levá-la ao desespero e à dolorosa decisão de abortar. No entanto, é um equívoco pensar que o aborto seja a solução.
Nossa civilização foi construída apostando não na morte, mas na vitória sobre a morte. Por isso a Igreja criou hospitais, leprosários, casas para acolher deficientes físicos e psíquicos. Recorde-se, em época recente, a figura das Bem-aventuradas Madre Teresa de Calcutá e Irmã Dulce dos pobres, bem como os milhares de pessoas que, quotidianamente, se dedicam a defender e promover a vida humana e sua dignidade.
As constituições dos principais países ocidentais apresentam uma perspectiva claramente favorável à vida. A Constituição Federal do Brasil, em seu artigo 1º, afirma que a República Federativa do Brasil tem como um de seus fundamentos a dignidade da pessoa humana. E, no seu artigo 5º, garante a inviolabilidade do direito à vida.
Ajuda a evitar o aborto a implantação de políticas públicas que criem formas de amparo às mulheres grávidas nas mais variadas situações de vulnerabilidade e de alto risco, de tal modo que cada mulher, mesmo em situações de grande fragilidade, possa dar à luz seu bebê. Esta solução é a melhor tanto para a criança, que tem sua vida preservada, quanto para a mulher, que fica realizada quando consegue ter condições para levar a gravidez até o fim, evitando o drama e o trauma do aborto.
O Conselho Federal de Medicina ao se manifestar favorável ao aborto até 12 semanas parece não ter levado em consideração todos os fatores que entram em jogo nas situações que se pretendem enfrentar. Sua decisão, que não contou com a unanimidade dos Conselhos Regionais, deixa uma mensagem inequívoca: quando alguém atrapalha, pode ser eliminado.
Para justificar sua posição, o CFM evoca a autonomia da mulher e do médico, ignorando completamente a criança em gestação. Esta não é um amontoado de células sem maior significado, mas um ser humano com uma identidade biológica bem definida; com um código genético próprio, diferente do DNA da mãe. Amparado no ventre materno, o nascituro não constitui um pedaço do corpo de sua genitora, mas é um ser humano vivo com sua individualidade. A esse respeito convergem declarações de geneticistas e biomédicos.
Todos esses fatores precisam ser considerados no complexo debate sobre o aborto, reconhecendo os direitos do nascituro, dentre os quais o direito inviolável à vida que vem em primeiro lugar.
Que os legisladores sejam capazes de considerar melhor todos os aspectos da questão em pauta e que seja possível um diálogo efetivo, com abertura para alargar o uso da razão. O uso apropriado da mesma não descartaria nenhum fator, reconhecendo os direitos do nascituro, o primeiro deles, o direito inviolável à vida. Deste modo, será possível legislar em favor do verdadeiro bem das mulheres e dos nascituros, e se consolidará o Estado democrático, republicano e laico, que tanto desejamos.
domingo, 24 de março de 2013
A primeira pedra - por padre Orivaldo Robles
Com surpresa, pesar e oito meses de atraso, tomei conhecimento da morte do Augustinho. Morava em Mirassol, quando entrou no seminário de São José do Rio Preto. Era o caçula da nossa turma de 1953. No dia 11 de julho passado sofreu um enfarte. Estava com 69 anos, o que, para os nossos dias, não é velhice. Pesquisador do CNPq, apaixonado por temas que iam desde o “futebol até as mais complexas teorias da Física”, era uma “fonte viva de consulta”, na opinião de colegas. Já na infância, além do fino humor, revelava surpreendente inclinação para a Matemática, que fazia antever o notável professor em que se converteria. No seminário ficou pouco. Tempos depois que tinha saído, soubemos que ingressara no ITA – Instituto Tecnológico da Aeronáutica, de São José dos Campos. Era preciso ser muito cobra para isso. Para nós não foi novidade. O geniozinho acumularia título sobre título, até se laurear com o pós-doutorado pelo MIT – Massachussetts Institute of Tecnhology. Jamais abandonaria a paixão e a prática do ensino.
Dele recordo uma passagem própria dos meninos que éramos. Nosso pátio era amplo, em dois níveis, cortado no meio por um barranco em cuja falda se amontoavam terrões, que pareciam pedir para serem atirados em alguém. Por ali passávamos a caminho do campo de futebol. Num recreio de domingo, o Augustinho inventou uma provocação de brincadeira contra meia dúzia de colegas. Logo ele, o menorzinho de todos. Um Davi contra seis Golias. Em prudente distância, abriu dramaticamente os braços e desafiou: “Quem dentre vós não tiver pecado atire a primeira pedra”. Para sua surpresa, foi alvejado por uma chuva de duras bolotas de terra. Só lhe restou bater em retirada. Não sem protestar, aos berros: “Seus pagãos, vocês não conhecem o evangelho? Ninguém tacou pedra na mulher”. Inútil. Não lhe deram ouvidos. Perseguiram-no, morrendo de rir.
Vem-me à lembrança esse causo todas as vezes que leio, como na missa do último domingo, o episódio narrado por João (Jo 8,1-11). Jesus deu preciosa lição aos líderes religiosos do seu tempo. Lembrou-lhes que não eram melhores do que a mulher adúltera, que queriam apedrejar. É fácil imaginar a decepção que sentiram, acostumados como estavam a olhar os outros de cima para baixo, com desprezo e ar de superioridade.
Por que será tão difícil à nossa obstinada natureza humana admitir que todos somos passíveis de erro? Que não faz nenhum sentido presumirmos de ocupar posição melhor que nossos semelhantes? Pertencemos à mesma humanidade deles, cheia de idênticas misérias e defeitos. Ninguém está isento de cometer os erros que condena nos seus irmãos.
Exemplo: não é verdade que todos somos livres? Inclusive para professar a religião de nossa escolha. Então, por que não nos empenharmos em conviver harmoniosamente uns com os outros? Por que insultar quem segue orientação religiosa diferente? Blogs, facebooks e outras ferramentas das chamadas redes sociais fervilham de opiniões agressivas e repletas de ódio. Há gente que se aproveita da sombra do anonimato ou de codinome para expelir veneno. Ou inverdades. Que proveito a sociedade alcança com essa prática? Felicidade, paz, bem-estar?
Estamos entrando na semana santa. Boa oportunidade para refletir: será que não tem pecado quem vive lançando diatribes contra a religião alheia? Qual seu interesse atirar a primeira pedra? Isso, quando não atira todas, da primeira à última.
sábado, 9 de março de 2013
Um inculto e nobre amigo - por padre Orivaldo Robles
Nenhum professor de História poria no filho o nome de Teglatfalasar, Vercingétorix ou Nabucodonosor. Na certa compraria briga com a mulher e pretexto para o divórcio. Contudo, de vez em quando, nos assustam nomes que mais parecem palavrões. Onde os pais os descobriram? E por que marcaram assim os filhos para o resto da vida?
Em Jales (SP), no meu segundo ano escolar, em 1949, transferido não sei de onde, entrou em minha sala um colega chamado Heliobas (com “o” fechado). Bizarro, sem dúvida, o nome; mais bizarro o dono. Não se via, entretanto, no grupo escolar inteiro, um estudante que lhe negasse a mais rasgada simpatia. Era uma figura rústica, quase selvagem. Ao mesmo tempo, de uma doçura ingênua e um coração tão puro que se tornava impossível não amá-lo. Não revelava preocupação alguma de ocultar sua procedência de uma família com recursos mais limitados até do que as nossas. E olhe que nós já éramos pobres o suficiente para atender à categoria socioeconômica de classe D. Até inferior, se houvesse. Para ele, no entanto, pobreza não constituía problema. Nela nascera e com ela se acertava muito bem, desde o berço. Ela era como um componente natural de sua vida.
Taludo, de compleição física superior à nossa, era também mais velho. Ainda assim, acompanhar a classe custava-lhe indisfarçável esforço. Não tinha sido boa sua escola anterior, se é que acaso tivesse frequentado uma. Possivelmente trabalhasse duro na roça. Na certa, residia longe do amontoado de casas a que dávamos o pomposo nome de cidade. Com paciência de pai, o professor Oscar Aidar cuidava de lhe respeitar a lentidão do ritmo. De certa feita, observando que toda a classe tinha copiado as dez questões do quadro, mandou um aluno apagá-lo. Lá do fundo, irrompeu a voz grossa de Heliobas: –“Pera um pouco, professor. Ainda tô na novena”. Ninguém riu. Não fosse ele, a reação teria sido outra. Mas dele ninguém caçoava. Era puro demais para sofrer atos de “bullying”, do qual nem ainda tínhamos ouvido falar.
Numa das caminhadas dominicais – atrás de frutas silvestres e banho nas águas cristalinas do riacho que corria pelo matagal ao fundo da chácara do tio Vito –, meu irmão Eraldo, alguns vizinhos e eu nos aventuramos além das vezes anteriores. De súbito, demos com um rancho. Naquela área nunca tínhamos pisado. Nem visto pobreza igual. Heliobas aceitou bem nossa presença anunciada pelos cachorros. Não demonstrou constrangimento pela choupana em que sua família morava. No meio do mato. Literalmente.
Passado pouco tempo, nos mudamos. Nunca depois consegui dele sequer notícia. Estará ainda vivo? Em que parte deste Brasilzão rico, desigual e injusto? Melhorou a dura vida que suportava sem queixa? Desfruta de saúde e de uma boa aposentadoria? Goza de paz interior e vive feliz, rodeado de bastantes amigos? Criou uma linda família, com filhos e netos que lhe confortam a velhice? Seria o mínimo para compensar-lhe a infância (e juventude?) tão sofrida(s).
Ah, caro amigo Heliobas, sabe Deus quantos, como você, arrastam a nosso lado a sua cruz. Em silêncio. Nós desviamos o rosto. Como se não nos dissessem respeito. Nem revestissem a mesma dignidade que para nós reivindicamos. Deus queira que um dia, tremendo de pavor, não tenhamos que ouvir: “Tive fome e não me destes de comer, sede e não me destes de beber...” (Mt 25,42).
sábado, 2 de março de 2013
O dia seguinte - por padre Orivaldo Robles
Na década de 50 do século passado, a última luz que se apagava no Vaticano era a do papa Pio 12. Até uma hora da madrugada, a Praça de São Pedro mostrava as venezianas iluminadas dos seus aposentos. Antes das seis, estavam de novo acesas. Trabalhador infatigável, dormia menos de cinco horas por noite.
Depois dele vieram cinco. Quatro morreram no cargo. O último, não. Desde anteontem, estão apagadas as luzes que o mostravam em casa. Fico matutando sobre sua primeira noite na condição de papa emérito. No Palácio Apostólico de Castel Gandolfo, enquanto espera a reforma do convento Mater Ecclesiae, sua nova residência, será que demorou a pegar no sono? Precisou de algum comprimido para dormir? Pois é raro modificar tanto a vida de um homem. Menos ainda, a vida de uma Igreja multissecular.
Ele não tomou, porém, sua decisão de afogadilho. Sabia o que estava fazendo: “Dei este passo com plena consciência da sua gravidade e também novidade, mas com profunda serenidade de espírito. Amar a Igreja significa também ter a coragem de fazer escolhas difíceis, dolorosas, tendo sempre diante dos olhos o bem da Igreja e não a nós mesmos”.
Para o cristão a fé é o fundamento da vida. A ninguém deveria surpreender a descrição do seu pontificado: ”Foi um pedaço de caminho da Igreja que teve momentos de alegria e luz, mas também momentos não fáceis; senti-me como São Pedro com os apóstolos na barca no lago da Galileia: o Senhor deu-nos muitos dias de sol e brisa suave, dias em que a pesca foi abundante; mas houve também momentos em que as águas estavam agitadas e o vento contrário – como, aliás, em toda a história da Igreja – e o Senhor parecia dormir” (catequese de 27/02, quarta-feira). Nenhuma queixa. Apenas citação da tempestade no lago (Mc 4,35-41). Ainda assim, houve interpretações peregrinas. Não quiseram ler o excerto “como, aliás, em toda a história da Igreja”. Bento 16 admitiu que a miséria, a fraqueza e o sofrimento são indissociáveis do gênero humano. Não se desagregam, portanto, da Igreja do Senhor.
Com dor e também com franqueza reconhecemos crimes e pecados em nosso meio. Bem que gostaríamos de uma Igreja impecável, constituída somente de anjos. Mas não existe. O próprio Senhor deixou expresso que veio chamar não justos, mas pecadores (cf. Mc 2,17). Melhor do que ninguém, sente-o um velho e sofrido papa. Com o profeta confessamos: “A ti, Senhor, convém a justiça; e a nós, hoje, resta-nos ter vergonha no rosto” (Dn 9,7). Mas a Igreja é de Cristo, que não exclui os pecadores. De qualquer religião e de até de religião nenhuma. Pois todos o somos.
“E, no entanto, é preciso cantar. Mais que nunca é preciso cantar. É preciso cantar e alegrar a cidade”. Parafraseando Toquinho e Vinícius, entendo que é preciso remar no agitado mar destes dias. Mesmo que não seja cada um de nós, como se definiu Bento 16, doravante mais do que um “simples peregrino que começa a última etapa de sua peregrinação nesta terra” (despedida em Castel Gandolfo, 28/02).
sábado, 16 de fevereiro de 2013
E agora, José? - por padre Orivaldo Robles
Em 19 de abril de 2005, uma terça-feira, segundo dia de votação, o cardeal chileno José Arturo Medina Esteves veio ao balcão da Basílica de São Pedro e proclamou: Habemus papam. O novo pontífice, chamado José, escolheu o nome de Bento. Era a escolha previsível, apesar de se tratar de um quase octogenário. Não se passaram oito anos. Neste 11 de fevereiro, segunda-feira de Carnaval, o papa de quase 86 anos apresentou sua renúncia. Com Drummond perguntamos: E agora, José?
Este idoso José é um professor universitário, autor de mais de 40 livros, unanimemente reconhecido como o maior teólogo vivo. Desde 1953 com brilhantismo ministrou suas aulas nas universidades de Bonn, Münster, Tübingen e Ratisbonna. O cardeal Josef Frings, arcebispo de Colônia, escolheu-o como assessor teológico para assisti-lo no Concílio Vaticano 2° (1962-65). Ao lado de Karl Rahner integrou um grupo de teólogos de vanguarda que assessoraram bispos da Alemanha, Áustria, França, Bélgica, Holanda e os notáveis arcebispos italianos Giacomo Lercaro, de Bolonha, e João Batista Montini, de Milão, este, eleito depois ao papado com o nome de Paulo 6°.
Seu trabalho renovador sofreu duro golpe com os rumos tomados por católicos de regiões da Europa no pós-concílio. Era o tempo da corrida armamentista, da revolução sexual, de Betty Friedan, do Bra-Burning, de Daniel Cohn-Bendit, da revolta estudantil no Quartier Latin, da Guerra do Vietnã, do Woodstock, das ditaduras cruéis na América Latina... A Igreja não ficaria imune a tudo isso. O teólogo de mente aberta sentiu necessário rever posições que entendia comprometer valores perenes da mensagem cristã. Quem não viveu essa fase histórica não compreenderá o drama íntimo de um intelectual comprometido, mais que tudo, com sua consciência.
Em 1977 Paulo 6° nomeou-o arcebispo de Munique-Freising e, logo depois, cardeal. João Paulo 2° confiou-lhe, em 1981, a Congregação para a Doutrina da Fé. Aceitou, conhecendo que ia se defrontar com “certo tipo de relativismo, que diz que tudo é apenas uma questão de opinião e preferência, e que a verdade não existe”. Sua postura firme lhe renderia o rótulo de conservador intransigente, que muitos lhe atribuem. Completados os 75 anos de idade, por duas vezes apresentou renúncia, conforme previsto no Direito Canônico. Não foi aceita por João Paulo a quem coube substituir em 2005.
Diferente de seu carismático antecessor, incomoda-o a exposição midiática. Multidões o assustam. Ele é um intelectual tímido, sempre saudoso da cátedra, dos livros e do silêncio das bibliotecas. Nos tempos do magistério, dividia seu salário com estudantes pobres do 3° Mundo, que recebiam bolsa para estudar na Europa. Apesar da provecta idade e reduzido vigor físico, nos oito anos do papado conseguiu disposição e tempo para escrever três encíclicas e publicar três livros.
No dia 11 passado, anunciou: “Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idôneas para exercer adequadamente o ministério de Pedro. [O vigor do corpo e do espírito] nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado”. Marcou para 28 deste seu último dia no cargo e pediu “perdão por todos os meus defeitos”.
Num tempo em que pronunciamentos e fatos se divulgam mundo afora em tempo real, sobram interpretações para todos os gostos. Todos se dão ao direito de opinar, ainda que ignorem sobre o que falam. Este é o nosso mundo. Mas há que reconhecer: exige-se muita grandeza para saber a hora de deixar o comando.
sábado, 9 de fevereiro de 2013
Vizinho danoso - por padre Orivaldo Robles
A avalanche de notícias sobre o incêndio da boate Kiss, de Santa Maria (RS), trouxe à tona relatos comoventes até para jornalistas traquejados em contar desgraças. No meio de tanta dor e desespero apareceram gestos de grandeza com que poucos contavam. Feitos por anônimos que, não obstante a pouca idade, se mostraram heróis autênticos. Jovens nem um pouco interessados em divulgar o que fizeram. E o que fizeram foi dar a vida para poupar da morte pessoas que nem conheciam. Quem os animou na esperança de resgatar vidas desconhecidas? Alheios à própria segurança escreveram, naquela sinistra noite, a página mais luminosa da história de Santa Maria. Fico imaginando que emoção cultivam pais, irmãos e colegas dos que, tentando salvar outros, se enfiaram naquele inferno de escuridão e calor.
A gente não se torna herói por um passe de mágica. Num instante de irreflexão. Antigo provérbio ensina que a natureza não dá saltos. O caráter molda-se de forma lenta, no custoso passar dos anos. Ouvimos histórias dessas vidas curtas, formadas em lares simples, por pais pobres, afeitos a princípios que o tempo não apaga. É o conforto que lhes suaviza o amargor dos anos. Mas também os orgulha pela criação que souberam dar aos rebentos.
Não sei se sou mal informado ou pessimista mesmo. Ando assustado com o que as crianças atuais aprendem. Ou desaprendem. Não me agrada dizer, mas venho de um tempo muito diferente. Fui criado na roça. Não dispúnhamos de um milésimo do que hoje se oferece aos filhos. Ignoro se era melhor ou pior. Era o possível. Alguns ditames de cunho humano e cristão, no entanto, se cultivavam em todas as famílias. Ainda que não frequentassem nenhuma igreja.
Solidariedade, por exemplo. Transmitia-se não por lição teórica, mas através do exemplo. À noite, o pai dizia: “Amanhã vamos trabalhar no café do seu Emílio. Ele está doente. Os meninos sozinhos não dão conta. Já derriçaram bastante. Mas uma chuva agora vai fazer tudo arder”. Ninguém estranhava. Todos agiam assim. Braços disponíveis se juntavam. De adultos e de crianças. No fim do dia, abanado e ensacado, o café do seu Emílio estava na tulha. No outro dia, estendido no terreirão. Dar um dia, ou mais, de serviço a quem precisava era normal. Roçada de pasto, capina de mato, colheita de cereais... Ninguém se recusava a ajudar. Cada um trabalhava para si, mas o prejuízo de um doía em todos. O grupo se esforçava para que cada família tirasse do seu trabalho o maior rendimento.
Era religião? Cultura? Tradição? Ninguém se preocupava em saber. Não se dava nem se pedia explicação. Fazia-se porque era necessário. Não havia nem ignorante nem egoísta a ponto de pensar só no próprio interesse. Ajudava hoje, amanhã podia ser ajudado. Era unânime a opinião: o bem comum se sobrepõe ao individual. Felicidade pessoal não convive com infelicidade alheia. Pessoas dotadas de um mínimo de lucidez não discutem isso. Está aí o mais elementar princípio: “Faz aos outros o que queres que te façam” (cf. Mt 7,12).
Na roça éramos atrasados, pois não? Na cidade as pessoas ficaram sabidas. Ou egoístas? Só se preocupam consigo mesmas. O egoísta inferniza a vida de todo o grupo em que se coloca. Exemplo: reunião de condomínio. Ele não está nem aí para o que é comum. Imagine se vai mover uma palha para o bem dos outros. Nem pensar. Assim é o progresso, né? Para que ser um bom vizinho? Melhor ser vizinho danoso. Os outros? Ora, eu indo bem, os outros que se danem!
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