sábado, 20 de julho de 2013

O bom rabi e o cão - por padre Orivaldo Robles

Uma fábula oriental conta que, nos arredores de Jerusalém, várias pessoas distraíam-se a contemplar um cão morto, estirado no caminho. Mostravam nojo e desprezo, ao tempo em que emitiam opiniões sobre o motivo de o terem arrastado até ali. “Deve ter sido um daqueles cães vagabundos, que invadem quintais para roubar comida”, disse um. “Com esse pelo coberto de rabugem, bem se vê que foi um cão vadio, que nunca teve dono”, arriscou outro. Um terceiro emendou: “Vai ver, algum morador da redondeza o matou e abandonou-o aí para os corvos”. Essas e ideias de igual teor eram expostas em voz alta e sem disfarce. Foi quando se achegou um desconhecido. Seu rosto refletia luz invulgar, que atraía atenção e respeito. Estava claro que ouvira os comentários feitos. Lançou sobre o animal morto um olhar de piedade e arrematou com doçura: “Nenhuma pérola seria capaz de brilhar tanto como a brancura dos seus dentes”.
A admiração tomou conta até dos mais afastados. Voltaram-se todos para ele. E como outro grupo que, em diferente oportunidade, lhe tinha exigido a condenação de uma mulher surpreendida em adultério, cabisbaixos e envergonhados, um por um, começaram a retirar-se. Os mais velhos, na frente. Um jovem de cabeleira farta e barba eriçada arriscou o palpite: “Esse não será Jesus de Nazaré, o rabi de quem falam maravilhas? Quem, senão ele, veria qualidades até num cão morto”?
Conheço a fábula desde não sei quando. Na realidade, faz muito tempo. O texto apresenta, aqui ou ali, pequenas variantes. No entanto, é sempre o mesmo relato. Nunca lhe soube a origem até que, agora, ao pesquisar, vim saber que está no livro “Lendas do bom rabi”, de Malba Tahan, pseudônimo de Júlio César de Mello e Souza (1895-1974). Apaixonado por Matemática e pela cultura árabe, ele dignificou, como poucos, a carreira de professor, que exerceu durante a vida inteira.
Desculpe-me, inusitado leitor, andei divagando. A fábula vale pela sua moral. Não é fato verídico, porém aduz precioso ensinamento. Atual também.
No trânsito, nunca uma criança do veículo à sua frente lhe mostrou a língua? Calculo que você ficou sem graça. “Que eu fiz para merecer isso?”, deve ter-se perguntado. Ligue não, assim é nosso mundo. Sartre propôs que “o inferno são os outros”. Na sociedade agressiva e injusta em que vivemos, filhos são preparados para competir na vida adulta. Aprendem, desde cedo, a encarar os outros como adversários. Como concorrentes interessados em roubar aquela vaga na creche, no hospital, na universidade, no emprego, no trânsito...
“Quem é o meu próximo?” (Lc 10,29), pergunta-se no Evangelho. A sociedade atual não dá a mínima para a resposta do Mestre. Já tem a sua: “Próximo é o sujeito no qual devo pisar sempre. Ele não tem nenhuma qualidade boa. O próximo não presta”. Ele é a Geni da música do Chico Buarque. Ou pior.

É!... Perdemos na poeira do tempo aquilo que o bom rabi viveu e transmitiu. Para muitos a sua doutrina transformou-se num amontoado de conselhos para consolar perdedores. A História registra e admira os feitos dos que venceram. Dos senhores de povos e nações. Daqueles cujas conquistas se adubaram no ódio e na violência. A isso chamam civilização. Também dão o nome de progresso.

sábado, 13 de julho de 2013

O profeta e a cidade - por padre Orivaldo Robles

O profeta é um visionário. Seu olhar penetra o que a outros é inatingível. Ele colhe na intimidade com Deus o talento para ditos que encantam. É vizinho, senão gêmeo do poeta. Como este, transmite noções com um talento que embasbaca. À gente ignara ocorre, por vezes: “Como não pensei nisso”? Mas dom é dom: não se dá a quem quer. Nada se faz por merecê-lo. Quem o possui simplesmente o ganhou. Para desfrute não de proveito pessoal, mas aberto ao bem de todos.
No século 8° a. C., em anúncio dos tempos messiânicos, Isaías formulou uma proposta assombrosa. E, ao mesmo tempo, encantadora: “O lobo será hóspede do cordeiro, o leopardo vai se deitar ao lado do cabrito. O bezerro e o leãozinho pastarão juntos; uma criança pequena tangerá os dois. O urso e a vaca pastarão unidos, enquanto suas crias descansarão lado a lado. O leão comerá capim como o boi. O bebê vai brincar no covil da víbora; a criancinha enfiará a mão na toca da serpente” (Is 11,6-8). A quem não sensibiliza o lirismo da descrição? Que não deixa, ao mesmo tempo, de ser, em toda a essência e vigor, palavra de Deus. Instado a propor ao reino de Judá o projeto divino, reúne Isaías e harmoniza dons de profeta e poeta.
No final do livro, o texto de um terceiro profeta, distinto também do Dêutero-Isaías (Is 40 a 55), descortina o clima do retorno a Jerusalém, ao fim do exílio da Babilônia (587-538): “Alegrai-vos com Jerusalém e exultai com ela todos vós que a amais; tomai parte em seu júbilo todos vós que choráveis por ela. Assim podereis sugar o leite de seus seios acolhedores. Podereis sugar e vos deleitar em seus peitos generosos. Farei correr para ela a paz como um rio e a glória das nações como torrente transbordante. Sereis amamentados, carregados ao colo e acariciados sobre os joelhos. Como mãe, que acaricia o filho, assim vos consolarei. E sereis consolados em Jerusalém” (Is 66,10-13).
Jerusalém quer dizer morada da paz. No mais profundo anseio bíblico ela é vista como cidade da felicidade, da paz. Não da mera ausência de conflitos. Mas da harmonia e total bem-estar das pessoas. Esta é a Jerusalém anunciada pelo profeta. No fundo, a cidade pela qual ansiamos todos nós. Ninguém há que não sonhe com uma cidade que o amamente, carregue no colo, acaricie sobre os joelhos. Em qualquer idade, afirmamos nossa necessidade de colo. O regaço materno será, por toda a vida, o modelo cabal de felicidade a que nos transportam nossas lembranças.
Que privação acha o leitor que denunciavam os manifestantes do mês passado? Não por acaso, a imensa maioria se compunha de jovens. Expressavam o desejo de que sua cidade fosse morada da paz para todos. Da paz que assossega por inteiro o coração. Por isso, assim do nada, com só o recurso das redes sociais, fizeram ecoar seu grito por São Paulo e Rio. Não só: a partir daí, por cidades do Brasil inteiro. Do Rio Grande do Sul à Paraíba e Roraima. Preso na garganta eles traziam não o grito por uns poucos centavos da tarifa urbana, mas pela falta de saúde, escola, segurança, locomoção, trabalho, dignidade, infraestrutura, respeito, futuro... Pela necessidade de vencer a corrupção, a desigualdade social, a falta de oportunidades.

Agora, se fala dos oportunistas, caroneiros, aproveitadores... Dos diversionistas que defendem a própria pele e o próprio poder. Que, apesar deles, não se apague a justa aspiração por nossas Jerusaléns. Por nossas cidades da paz. Cidades nas quais vejamos respeitada a dignidade de todos os irmãos. Até da maioria, que não conhece como é a vida no andar de cima.

sábado, 6 de julho de 2013

Lições de futebol - por padre Orivaldo Robles

Sabe aquela propaganda do bancário que cresceu ao lado do amigo e, para cada etapa que cita, vai repetindo: “Ele, titular; eu, banco”? Fosse comigo, a frase seria: “Ele, titular; eu, gandula”. Nem banco seria. Futebol, devo admitir, nunca foi exatamente minha praia. Apesar de eu ter sido fominha por bola e jogar o mais que podia. Foi o único esporte que pratiquei. Mas, se tivesse cometido a burrice de tentá-lo profissionalmente, na certa morreria de fome. Em campo fui sempre ponta-direita. Daqueles antigos, que vestiam a camisa sete, carregavam a bola até à linha de fundo e cruzavam, na esperança de que aparecesse alguém na área para mandá-la às redes. Tive desempenho medíocre, reconheço. Marquei também gols importantes. Menos, porém, do que se contam nos dedos das mãos.
Como a maioria dos brasileiros, aprecio uma partida de futebol bem jogada.  Sobretudo da seleção brasileira. Só que não me deixo engambelar por manobras politiqueiras, que exploram a paixão do povo com o propósito de angariar simpatia e votos. Interesso-me pela peleja desportiva, pelo esforço dentro de campo, pela vitória honesta. Se por goleada, melhor ainda. Sou do tempo em que, nos jogos da seleção brasileira, a pergunta era de quanto tinha ganhado. Ela não perdia.
Reconhecendo, embora, os problemas de toda ordem que, nestes dias, assolam o País, não me pude furtar ao sabor da vitória, domingo passado, 30 de junho, sobre a seleção espanhola de tantas e merecidas glórias. A Copa das Confederações me deu enorme alegria. Eu vinha com a seleção “roja” atravessada na garganta. Queria que a final fosse Brasil x Espanha. Mas estava certo de que a Espanha venceria.
Eu, 47 milhões de espanhóis residentes na Espanha e todos os outros espalhados pelo mundo. Era quase impossível nossa equipe, reunida há pouco tempo, vencer uma potência dirigida há cinco anos pelo mesmo treinador e composta pelos melhores jogadores da Europa. Para eles deve ter sido muito duro engolir a derrota. Pior ainda, pelo placar elástico e pelo domínio brasileiro em campo.
Mas nada justifica patriotada. Nem desvalorização de conquista alheia. Como tentou jornalista espanhol, ao entrevistar o treinador e, em seguida, o goleiro da Espanha. Por duas vezes, ele insistiu em atribuir a derrota ao cansaço dos jogadores. Ao fato de, três dias antes, contra a Itália, terem sustentado uma partida extenuante, que se prolongou até ao tempo extra e às penalidades. Autênticos e elegantes, treinador e arqueiro reconheceram que os brasileiros tinham jogado melhor que os espanhóis. Simplesmente isso.
Esqueceu-se o repórter que, na 1ª fase, a Itália tivera adversários pedreira, como Brasil, México e Japão. Enquanto isso, a Espanha enfrentara Uruguai e as babas Nigéria e Taiti. Na final, em Salvador, a Itália jogou contra o Uruguai, sob o sol das treze horas. Teve nova prorrogação e nova disputa de penalidades. E venceu. Contra o Brasil, no Maracanã, a Espanha jogou os 90 minutos regulamentares, à noite e em temperatura bem mais amena. Quem experimentou maior cansaço?

Por que certas pessoas sentem dificuldade em admitir que outras – em idênticas ou até em piores condições – levem sobre elas uma justa vantagem? Será tão difícil suportar que outros nos superem em algum aspecto? Por que a ânsia de ser superior sempre e em tudo?  

sábado, 29 de junho de 2013

Por que criança chora? - por padre Orivaldo Robles

Memória de idoso é uma encrenca. Sem mais nem menos, revolve lá no fundo e desentoca coisas que ninguém conhece ou recorda. É o caso do exemplo a seguir. Sem esforço e com assiduidade, me vem à cabeça uma canção encontrada num dos meus velhos LP nos quais, por falta de tempo ou por comodismo, faz séculos que não mexo. Aos menos vividos acho bom esclarecer que LP é abreviatura de “long playing”. Designa um antigo disco, dito de vinil, que talvez tenham visto em figura. Nele eram gravadas normalmente doze melodias. Foi o sucessor do disco de 78 r.p.m. (rotações por minuto). Por causa do tamanho, também este, mas especialmente o outro, recebe hoje o apelido de bolachão. O LP apareceu na fase anterior ao CD, ou “compact disc”. Entendo que para nossos atuais garotos CD também não queira dizer nada. É coisa do tempo do onça.
A melodia a que me refiro começava com as palavras: “Señora Santana, por qué llora el niño? Por una manzana, que se le ha perdido”. Traduzindo: “Senhora Santa Ana, por que o menino está chorando? Por uma maçã que ele perdeu”. Canção de ninar, comum no México e em Cuba, com variantes diversas na letra, ora mais curta, ora mais extensa. Canta-se normalmente no período natalino.
Criança é um serzinho especial, feito de meiguice e mel, que amolece até os corações mais embrutecidos. Não há quem não se enterneça com seu pranto. Não falo da manha ou birra, fáceis de identificar, que mostram esperteza em levar os adultos no bico, quando o interesse é ganhar colo ou satisfação de qualquer desejo. Refiro-me ao pranto genuíno, sentido, que nasce lá no fundo e aflora em lágrimas, aos borbotões, correndo num rostinho marcado pela tristeza. Quem consegue manter-se indiferente a esse quadro? Tenho para mim que o ornato de um rosto infantil haveria que ser o sorriso. Só sorriso permanente e radioso. Estridente feito bica d’água batendo em pedras. Choro de criança é desventura que nunca devia acontecer. É infelicidade no estado puro, confissão da absoluta impotência de escapar das garras de uma dor incompreendida e atroz. Em carinha de criança, lágrima teria que ser anormalidade. Dor teria que ficar reservada para nós, adultos, como castigo para os pecadores que somos. Nunca ferir quem ainda nem descobriu o que é viver. Quem não aprendeu a andar com os próprios pezinhos. Nem é capaz de explicar aquilo que sente.
Por qué llora el niño? Ah, por inúmeras razões. Especialmente niño brasileiro. Chora de fome. De frio. De medo. De solidão e abandono. De doença e dor. De tristeza. De ameaça à própria vida. Da incerteza quanto ao futuro. Do terror que provoca a violência presente em cada esquina...
Ao observar o que, nestes dias, vem acontecendo Brasil afora, a gente sente vontade de questionar: Que ocultas e seculares dores a voz (não rouca, mas muito clara) das ruas está trazendo? Quantas crianças mudas reclamam através dos jovens, que bradam alto em todos os quadrantes do País? Milhões de queixas, engolidas pelos inocentes donos das lágrimas que ninguém secou, vêm agora expressas pelos seus porta-vozes, nas ruas.

Ninguém pode desprezar o clamor que sobe das ruas. Manifestantes gritam com uma força que crianças não têm. Não deve passar em branco a oportunidade que o Brasil inteiro tem de escutá-los. 

sábado, 22 de junho de 2013

Vem pra rua - por padre Orivaldo Robles

Terça-feira passada, dezessete e trinta, mais ou menos. Nariz pingando como torneira que não fecha, eu ia apressado à farmácia do canto da praça. Faz tempo, me deram um cartão da melhor idade. Melhor para quem? Para os laboratórios, com certeza. São os que lucram com nossas doenças. O cartão me dá pequeno desconto. Não posso desprezar; tomo uma batelada de remédios de uso contínuo.
Enquanto caminhava, eu ouvia o alto-falante convocando as pessoas para o início da manifestação. Lamentei a coriza e o mal-estar que sentia. Mais que isso, porém, lamentei não possuir a disposição de 1992, da caminhada pelo impeachment do presidente Collor. Naquela vez, saí às ruas no meio de uma multidão composta, em sua maioria, por adolescentes conhecidos como “caras pintadas”. Pintaram a minha também. Tempo bom. Não há setentão que não recorde com gosto a vida que levava há vinte anos. Desta vez, tomei direto o rumo de casa. Nas ruas, jovens risonhos – de novo, quase todos adolescentes – portavam cartazes pintados à mão. Riam e aprontavam todo o barulho que a hora e o lugar lhes permitiam.
Mais tarde, já em casa, um forte alarido de vozes invadiu minha sala. Que seria? Tentei desligar-me. Não consegui. O barulho não dava sinal de que ia parar. Larguei a nebulização que estava fazendo e me aproximei da janela. Onze andares abaixo, ocupando calçadas e o leito da rua, movia-se uma baita aglomeração de gente. Li, dia seguinte, que dez mil pessoas a compunham. Não sei quem contou. Não disponho de meios para conferir, então tenho que acreditar. Caminhavam ao som de apitos, de assobios, de buzinas dos veículos parados, de instrumentos de percussão e de vozes, que gritavam em comando: “Vem pra rua”! Visto do alto, era um bonito espetáculo. Assim, ao vivo, eu nunca tinha assistido. Permaneci encostado à janela pelo espaço de uma boa meia hora. Até que passaram todos, e os automóveis voltaram a se pôr em movimento.
Qual o motivo da grande manifestação? Não, por certo, só os vinte centavos de aumento na tarifa do transporte urbano. Isso foi a gota d’água. O povo já vinha, desde muito, com insuportável clamor entalado na garganta. Esperava apenas o momento de pôr para fora. Começando pela maior cidade do país, por todos os cantos, explodiu a indignação que, nos anos 80, Ulysses Guimarães chamara de “a voz rouca das ruas”. Rouca podia ser a voz dele, próximo dos 70 anos de idade. A das ruas era límpida e vibrante. Escutei-a sob a minha janela. Adolescentes, jovens e adultos davam, na verdade, um recado a todos os que detêm poder: “Cansamos de ser tratados como um bando de patetas. Basta de políticos corruptos e incompetentes. Parem de esbanjar o nosso dinheiro. De sucatear a Educação, a Saúde, a Infraestrutura, a Segurança, o Transporte... Exigimos um país decente. De vergonha na cara”. Com o ímpeto da idade, uma jovem do Rio de Janeiro depositou no cartaz a sua esperança: “Desculpe o transtorno. Estamos mudando o País”.

Há quem duvide. Quem veja nisso puro fogo de palha aceso por gente que sequer usa ônibus urbano ou trem de subúrbio. Quem sabe em que vai dar? Mas uma caminhada de mil quilômetros – ensina a sabedoria chinesa – começa pelo primeiro passo. Vai saber se não estamos assistindo ao despertar de um novo Brasil? De um Brasil disposto a se erguer do berço esplêndido? Brasil que cansou de ser um gigante deitado? 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Namorados - por padre Orivaldo Robles

Minha cidade, no interior paulista, ostenta na única praça uma estátua de Santo Antônio. Nenhuma novidade. Em Curitiba, na praça da Catedral, há uma estátua de Tiradentes. A da minha cidade foi doada por Durvalino Magrini e inaugurada, nos anos 50, perante um colosso de gente. Um frade franciscano português, convidado para o evento, em seu discurso, várias vezes, falou de Santo Antônio de Lisboa. Deixou-me confuso. O padroeiro do lugar era Santo Antônio de Pádua, único que até ali tinha ouvido. Só mais tarde vim saber que ele era natural de Lisboa. Morrera em Pádua, na Itália, daí a designação pela qual é conhecido. Mas experimente convencer um português a chamá-lo Santo Antônio de Pádua!
Trazida pelos colonizadores, sua devoção tornou-se, no Brasil, tão popular que mudou a data do Dia dos Namorados. Entre nós ninguém o celebra a 14 de fevereiro, dia de São Valentim, como fazem outros países. Dia dos Namorados aqui é 12 de junho, véspera de Santo Antônio. Por causa da sua fama de santo casamenteiro. Lendas variáveis apresentam-no como paladino do amor entre jovens que alimentam o desejo sincero de se casarem. Santo Antônio é o protetor dos namorados.
Se há no Brasil uma palavra que mudou inteiramente de sentido é namoro. O que ela quer dizer, hoje em dia, não recorda em nada o que significou há algum tempo. Pergunte a um jovem o que é “vela”. Ele se lembrará do cilindro de cera com um pavio que se acende para clarear; da peça do motor de combustão que produz fagulha; ainda da grande parte de uma embarcação tocada pelo vento. Conte-lhe que também pode significar pessoa em vigília, observador, sentinela. Ele achará estranho. Estranhará ainda mais se souber que os antigos usavam vela para cuidar do namoro dos filhos. Especialmente das filhas. Pais costumavam deixar o casal de namorados na sala. Mas não inteiramente sós. Escalavam uma criança – a vela – para fazer-lhes companhia. Conheciam a natureza humana. Para evitar possíveis dores de cabeça, levavam a sério a máxima, trazida pelos portugueses, suponho: “O homem é fogo; a mulher, estopa: quando se juntam vem o diabo e sopra”.
Como analisar pais que agiam assim? Eram antiquados? Ignorantes? Prefiro achar que fossem apenas de outra época. Viviam num mundo diferente. Faço uma comparação: Naquele tempo, a maior carroça não aguentava carga superior a 500 quilogramas. Cruzando hoje nossas estradas, uma carreta transporta 32 toneladas. Considerava-se estudado quem tinha concluído o curso primário. Agora, nem pós-doutorado assegura uma qualificação definitiva. O mundo em que vivemos está permanentemente aberto a mudanças e novas descobertas.
O passar dos anos trouxe alteração do sentido de muitas palavras. Não expressam mais a significância original com que foram criadas. Também transformou muitos costumes. Buscando uma tradução fiel, que se entende atualmente por “namorar”? Qual o exato significado que as pessoas dão a palavras como namoro e namorado(a)? E, por consequência, para que serve um Dia dos Namorados? Como celebrá-lo com toda a solenidade possível? Pela propaganda que bombardeia nossa mídia, muita gente não conseguirá pensar em nada diferente de um delicioso jantar a dois, seguido de uma ardente noite de sexo.

Depois há quem reclame que um casamento preparado desse jeito não vai muito longe. E podia?

sexta-feira, 7 de junho de 2013

O pica-pau - por padre Orivaldo Robles

Numa dessas manhãs, no meio das poucas árvores da Praça da Catedral, ouvi pipilar um pica-pau. Um não; dois. Um piava, outro respondia. Corriam pela grama, alçavam voos curtos, subiam às copas das árvores. Um casal, sem dúvida, em busca de lugar para construir o ninho. Devem ter ido embora decepcionados. Não cresce ali mais nenhuma palmeira decente que mereça o furo do seu afiado bico. Nada parecido com a fartura de que dispunham seus ancestrais. Quem morou na roça recorda os coqueiros no meio do pasto, duros como ferro e altos como prédios. Os pica-paus os martelavam até perfurar um orifício redondo e fundo. Com uma capacidade fabulosa de escutar – ouvem larvas ou insetos movendo-se no interior do tronco – cavam o caminho até sua refeição, além de providenciar a maternidade onde nascerão seus descendentes. Para pôr ovos e criar filhotes, não sei de outro pássaro, tirante o joão-de-barro, capaz de construir uma casa tão segura.
Não sou ornitólogo, menos ainda especialista em pica-pau, mas arrisco pensar que a cada ninhada, ele procura outra árvore para escavar um buraco novo. Vale dizer, a cada temporada de choco, repete o mesmo trabalho. Previdente, por causa do vento e da chuva, rompe a cavidade de baixo para cima. E a coloca no ponto mais alto da árvore para se livrar dos predadores. Após cinco semanas, os filhotes estão em condição de abandonar o ninho. Se nenhum gambá, coruja ou gavião até ali os descobriu, o perigo maior terá passado.
Assim como entre os humanos, também entre os pássaros há os que se aproveitam do esforço alheio. Sem a mesma capacidade do pica-pau, no tempo de incubar, o casal de papagaios tira vantagem do ninho em desuso e nele deposita seus ovos. Não tem noção do perigo a que se expõe. Maus exemplares do bicho homem, que sempre existem, pregam no tronco da árvore ripas de madeira escalando-as, como degraus de escada, para tirar os filhotes. Arrebatados do ninho muito novos, poucos papagainhos conseguem sobreviver. Uma judiação.
Senti dó dos pica-paus da praça. Não faz muitas décadas, ali se estendia uma senhora mata. Um oceano ondulante de verdura e vida. Para onde alguém olhasse o que via era um universo impenetrável, habitat feliz de uma profusão de bichos. Árvores de diversos vigores e alturas ofereciam, a quantos pica-paus houvesse, condição de construir os ninhos que desejassem. Trisavós do casal da Praça da Catedral nadaram numa riqueza que não voltará a repetir-se. Não precisaram, como estes dois, mendigar um escasso tronco onde cavar um oco de quinta classe.
A floresta que cobria tudo por aqui passou às mãos do bicho homem. Civilizado, entenda-se. Que via como progresso a derrubada, o plantio, a colheita e a comercialização do produto. Para fazer dinheiro, comprar terra e, de novo, devastar, plantar, colher, vender e acumular.
Que coisa! Não mais de cem anos de civilização bastaram para secarmos cursos d’água, assorearmos riachos, poluirmos e represarmos rios, deitarmos abaixo a floresta, envenenarmos o solo, anarquizarmos o clima e empestearmos o ar que respiramos. Antes da chegada dos brancos, durante milênios, populações indígenas ocuparam esta terra, fizeram uso correto das suas riquezas e preservaram os seus recursos.

Mas o que civilizados iam aprender com índios, não é? Índio é selvagem; nada entende de progresso. 

sábado, 25 de maio de 2013

Para onde foi o silêncio? - por padre Orivaldo Robles

Outro dia, nos dois lados da calçada à minha frente, contei seis pessoas falando ao celular. Não olhei para trás. É provável que outras estivessem fazendo o mesmo. O leitor já deve ter visto alguém conversando na rua, mas não percebeu com quem. Fique tranquilo. Não é nenhum daqueles infelizes que conversam sozinhos. Pode ver que ele mantém um aparelhinho colado na orelha. Existem até adaptações que permitem falar deixando as mãos livres. Inventadas, quem sabe, por algum italiano, que gosta de conversar agitando os braços, feito um helicóptero.
Não sei qual a relação entre o número de habitantes e o de celulares. Acredito que seja de empate. Em média, um celular por habitante. Como o automóvel, o celular marca a vida contemporânea. Não adianta ficar bravo. Ambos vieram para ficar. Em qualquer cidade é provável que a parcela maior da população disponha de carro e de celular. Mais de um até. Para os veículos é um suplício garantir vaga de estacionamento ou garagem de prédio. Para os celulares, ao contrário, nenhuma restrição. Estão aí, de todos os modelos, tipos, cores e preços. Dotados ainda dos mais impensáveis recursos, que os transformam no mais avançado Bombril das famosas mil e uma utilidades. Celulares podem hoje ser usados até como telefones.
Que haverá de tão importante para a gente ficar falando o tempo todo? Faz dez, quinze anos, celular era luxo. Raríssimos homens – mulher, nem pensar – dispunham-se a andar com aquele tijolão. Preso à cintura, mais parecia o coldre de um revólver. Os tempos mudaram. Hoje, a criança nem sabe ainda falar direito e já exige o brinquedinho falante. Houve época em que falávamos menos, mas apreciávamos a vida bem mais. Desde cedo, respeitávamos como sagrado aquele clima de mistério em que o silêncio nos envolvia.
Das cenas de minha infância, uma, por volta dos cinco anos, me transporta à sela do cavalo, protegido pelo pai, em direção ao curral do Adolfo Moretti. Àquela hora, com um empregado, ele ordenhava o seu gado leiteiro. No pastinho da nossa casa, as três vacas, que o patrão houvera por bem trazer para nosso uso, tinham resolvido cortar juntas o fornecimento do leite que bebíamos. Essa pendenga durou meses. O pai resolveu o problema. Madrugada, às vezes com a lua minguante no céu, ele encilhava o cavalo e nos púnhamos na estradinha para buscar leite a três quilômetros de distância. Ainda me pergunto onde o pai aprendera o refrão que, às vezes, cantava: “É madrugada, / De longe eu vim. / Deixe a lua sossegada / E olhe para mim”. Era só o que ele conhecia da marchinha – vim saber mais tarde – que Almirante e Braguinha tinham feito para um carnaval, não sei de que ano. A lua alta no céu, com certeza, lhe refrescava a memória.

Eu trocava preciosos momentos de sono matinal pelo encanto daqueles instantes passados com ele. Quase não nos falávamos. Às vezes, eu fazia alguma pergunta. Ele respondia com calma. Bom era o calor do seu corpo, a me passar uma segurança que, bem mais tarde, fui sentir, sozinho, num lombo de cavalo. Talvez tenha nascido aí o gosto, depois praticado no seminário, de começar o dia em silêncio. Uma sabedoria milenar a nós legada, desde os primeiros séculos, pelo monarquismo cristão. Silêncio que as novas gerações desconhecem. No entanto, sem esse corajoso mergulho no interior de si mesmo, ser humano nenhum descobrirá o sentido da vida. Só o silêncio tem o dom de colocar-nos face a face com a Verdade.

sábado, 18 de maio de 2013

Que futuro haverá? - por padre Orivaldo Robles


Alguém se lembra do filme “O Dia Seguinte”? Produção norte-americana de 1983, feita originalmente para a TV, desenhava os efeitos de uma guerra nuclear entre União Soviética e Estados Unidos. Era ambientada para Lawrence, no Kansas, cidade escolhida por situar-se no centro do país. Pretendia mostrar que uma guerra nuclear iria afetar a vida de todos, não importando onde vivessem. Hoje, a bem da verdade, nada acontece que não se faça sentir no mundo inteiro. Desde Herbert Marshall McLuhan (1911-1980), é aceito que vivemos numa “aldeia global”. Pelo menos no que tange ao comportamento. Basta um maluco inventar alguma idiotice num canto qualquer onde o Judas perdeu as botas para, do outro lado do mundo, alguém achar bonito imitá-lo. A macaquice patrocinada pelos meios de comunicação de todos os calibres faz tempo que mandou a privacidade para as cucuias.
Cada “especialista” que beberica sua cerveja no bar apresenta um diagnóstico para as barbaridades dos noticiários. Simplista, como toda explicação emocional e rasa. Poucos aprofundam as razões. Os fatos, porém, são desaguadouros de inúmeros tributários, difíceis de identificar, cujas nascentes têm, quase sempre, origens distintas e distantes. Nunca se explicam por um único fator. Elementos vários contribuem para sua gênese.
Há dez anos, na revista Interprensa IP, o educador João Malheiro apontava algo a que não se dá atenção. Um componente muito em voga é a deficiente educação para o prazer. Pai, educador ou psicólogo pode afirmar quanto é difícil conduzir uma criança, lentamente, mas de forma segura, a sair do seu mundinho pessoal para se abrir ao outro. No entanto, sem essa conversão, “ela viverá sob o domínio do prazer sensível e identificará – o que é um dos maiores enganos deste início de século – felicidade com prazer”.  Se no princípio do milênio existia essa percepção, calcule-se agora.
Boa parte dos adolescentes de nossos dias identifica felicidade com dormir quando e quanto quiser, vestir roupa de grife, calçar tênis de marca, comer o que agrada e na hora que bem entender, participar das festinhas e baladas que aguentar, adquirir os mais descolados aparelhos eletrônicos do mercado, gastar sem limite no shopping, dispor do mais sofisticado celular ou smartphone (com os aplicativos que desejar e sem restrição de uso), andar em carrão importado e do ano, dispor de dinheiro sem controle de gasto... Para garoto(a)s desse feitio felicidade nada tem a ver com formação de caráter, educação, estudo, saúde, poupança, moradia, transporte, segurança, respeito aos outros, bem-estar da sociedade, futuro da comunidade ou do país. Desde que não falte um burro de carga para lhes satisfazer os caprichos, tudo será válido. Para ele(a)s conquistar a felicidade nada mais é do que seguir os impulsos de sua natureza voltada ao prazer e ao consumo imediatos.
Não há como não perceber que vai crescendo o número de pais que aceitam essa “filosofia de vida”. Recusam-se ao trabalho de orientar a conduta dos filhinhos mimados. Jamais se revestem da coragem de dizer “não”.  Convenceram-se de que os seus anjinhos sempre estão certos: aos pais não cabe tolher o desenvolvimento da personalidade deles. Princípios religiosos, morais, sociais, pessoais..., para quê?
Tudo bem. Mas como vai ser o amanhã (que já está sendo hoje)?

sábado, 11 de maio de 2013

Dia das mães - por padre Orivaldo Robles


Um colega meu de seminário, nos anos 60, durante as férias, tinha o costume de reunir em casa os irmãos menores para explicar-lhes passagens da Bíblia. Numa dessas ocasiões, contou-lhes a parábola do filho pródigo (Lc 15,11-32). Ao final, quis saber se haviam entendido ou restava alguma dúvida. Na inocência dos seus cinco anos, a irmãzinha caçula surpreendeu-o com um grande problema: “E onde estava a mãe dele”? Para a pequena deve ter parecido estranho que figura tão importante como a mãe não tivesse lugar na história. A parábola fala do filho descabeçado; do mais velho, ciumento; do pai misericordioso; cita até os empregados – mas sobre a mãe, nenhuma palavra. Pode?
Deus deve ter inventado a mãe a partir das necessidades do filho pequeno. Ao menor desconforto, ele exige-lhe a presença. Dela, de mais ninguém. Vá o pai acudir, se a hora for de mamar no seio! Quando chegar o tempo da mamadeira, ele poderá intervir. Mas aí já o grude do nenê com a mãe será tão firme que nem formão afiado remove. Igualmente a ligação dela com seu bebê. Ela finge não olhar, simula despreocupação, mas está sempre vigiando, quando um colo alheio o abriga. Fêmea nenhuma sustenta com sua cria ligação tão intensa ou prolongada. Em qualquer tempo, cultura ou lugar do mundo. Não existe pessoa normal a quem não horrorize nem revolte o abandono de um recém-nascido por sua mãe. Com toda a razão. É o comportamento mais avesso à natureza. Até fêmea de bicho protege o filhote que pariu.
Escritores e poetas exaltam a mãe. Há quem ache exagero. Coelho Neto é malhado pelo último verso do soneto famoso “Ser mãe”. Não sendo mulher nem mãe, não teria ele como opinar sobre maternidade. Eu discordo. Entendo que aos poetas é dado intuir realidades que não conseguem experimentar, mas delas misteriosamente ficam sabendo. Por isso falam com acerto de vivências que não precisam necessariamente sentir. Parece-me suficiente a leitura atenta da última estrofe para reconhecer-lhe a exatidão. Está lá: “Ser mãe é andar chorando num sorriso. / Ser mãe é ter um mundo e não ter nada. / Ser mãe é padecer num paraíso”.
Alguém expressaria melhor a contradição que afeta o íntimo de uma mulher que se torna mãe? Primeiro, o anseio de ser criadora da vida. Depois, a alegria de se descobrir carregando um novo ser já em caminho. E junto, insegurança e receio, indisposições e incômodos do corpo que se vai, aos poucos, convertendo em outro. Alguns meses passados e não se reconhecerá mais como a mesma que até ali foi. Contudo, ainda que estranha a si mesma, invade-a uma nunca antes provada alegria, que lhe promete um futuro de luz, que não sabe como virá. Por último, o sonhado nascimento do filho chega recheado por temores, incertezas, dúvidas... Quando não, por sofrimentos e angústias, que jamais pensou pudessem existir. Na dura certeza de que tudo estará somente começando.
Mistério surpreendente. Logo se vê esquecida das amofinações que enfrenta. Ei-la já com saudade daquele tempo em que engendrou o filho que agora descansa em seu regaço. Coelho Neto captou a estranha síntese de dor e riso, que se instalam no coração da mãe. Só mesmo Deus, Senhor da vida e do heroísmo que a sustentam, conhece de que foi feita a mulher a quem chamamos com esse nome.
Que Ele abençoe a todas. Sempre. Não só no segundo domingo de maio.