segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Blood Money - Aborto legalizado

 Europa Filmes e a Estação Luz Filmes lançam a partir de São Paulo, no próximo dia 5 de novembro, com uma série de avant premières, o documentário “Blood Money – Aborto Legalizado”, uma produção norte-americana independente, assinada pelo diretor David Kyle.
Após o lançamento em São Paulo, têm início roadshows de pré-estreias, incluindo o Rio de Janeiro (6), Goiânia (7), Brasília (8), Belém (9), Curitiba (11), Salvador (12), Recife (13) e Fortaleza (14). Nestas cidades, Kyle falará de sua primeira incursão no cinema com esse documentário, que está se tornando um cult pelo realismo e crueza com que trata o tema e pelas denúncias que faz.
O filme de 75’ entra em cartaz nos cinemas a partir de 15 de novembro. Segundo Luís Eduardo Girão, diretor da Estação Luz Filmes, que adquiriu os direitos de distribuição no Brasil, o filme “Blood Money – Aborto Legalizado”, pretende atrair o público brasileiro, pois disseca o tema, revelando a experiência prática em um país onde o aborto é legalizado há 40 anos. ”Apesar de mais de 70% da população brasileira serem contra a legalização do aborto, de acordo com os principais institutos de pesquisa do país, o tema gera polêmica, causa grande interesse e esclarece o assunto sob vários aspectos.
Por isso esperamos que provoque repercussão, levando ao amadurecimento deste necessário debate no Brasil, onde ainda teimamos em tratar o aborto com hipocrisia”, diz Girão. O documentário de Kyle trata do funcionamento legal desta indústria nos Estados Unidos, mostrando “de que forma as estruturas médicas disputam e tratam sua clientela, os métodos aplicados pelas clínicas para realização do aborto e o destino do lixo hospitalar, entre outros temas, de forma muito realista”, conta Girão.
O filme também faz denúncias como a prática da eugenia e do controle da natalidade por meio do aborto e trata aspectos científicos e psicológicos relacionados ao tema, como o momento exato em que o feto é considerado um ser humano e se há ou não sequelas para a mulher submetida a este procedimento.
“Blood Money – Aborto Legalizado” traz, ainda, depoimentos de médicos e outros profissionais da área, de pacientes, cientistas e da ativista de movimentos negros dos EUA, Alveda C. King, sobrinha do pacifista Martin Luther King, que também apresenta o documentário. Dra. Alveda é envolvida em discussões sobre o mecanismo de controle racial nos EUA – o maior número de abortos é realizado nas comunidades negras. Segundo o diretor da Estação Luz Filmes, o amplo esclarecimento que o documentário oferece foi o que motivou sua produtora a assinar contrato com Kyle para adquirir os direitos de distribuição no Brasil. “É a primeira vez que o cinema trata o assunto desta forma, tirando-o da invisibilidade em um momento em que a mídia brasileira começa a discutir o assunto com coragem e com a importância que merece. Acreditamos que vá atrair diversos segmentos sociais e pessoas sensíveis a essa questão, sejam elas contra ou a favor da legalização do aborto no Brasil”.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Horário de verão - por padre Orivaldo Robles

Estou correndo o risco de receber paulada dos que pensam de forma diferente. Não sou versado nas ciências que tratam do assunto. Ainda assim, me arrisco a palpitar sobre o horário de verão, já em vigor. “Livre pensar é só pensar”, dizia Millôr. Exerço o direito de reclamar à toa, o “jus sperneandi”.
Não gosto desse horário. Jamais gostei. E não sou o único. Ele coleciona inimigos, assim como defensores, não sei em que proporção. Na Câmara dos Deputados repousam três projetos de lei, à espera da chance de o mandarem todos sabem para onde. Sinal de que também o detestam pessoas bem mais importantes que este obscuro escriba.
Todo ano, no terceiro domingo de outubro, desce um pesado mal-estar sobre meu corpo que, há tempo, consumiu os anos radiosos da juventude. Confesso que a primeira semana é braba. Depois, pouco a pouco, a máquina se adapta. Assim mesmo, pegando só no tranco. E contando os dias que faltam para o terceiro domingo do fevereiro seguinte.
Ouvi falar que esse horário é bom para aposentados. Também para quem pega no batente às nove da manhã. Ou ainda para os que dão expediente à tarde. Não tenho como comprovar. Cada um sabe de si. Agora, para quem pula da cama às 5h45m, inclusive nos sábados e domingos, não tem graça nenhuma. A sensação que me traz é a de que estou sempre atrasado. Parece que sobram obrigações no fim do tempo disponível para cumpri-las. É só descuidar um tiquinho que o relógio, implacável, vem buzinar na minha cabeça avisando que é tarde. Que amanhã o dia começa antes das seis. Não sei como alguns foram inventar que os dias se tornam mais longos. Que se conseguiu grande lucro com a ideia de retardar artificialmente a hora do pôr-do-sol.
Andei lendo que nos países equatoriais e tropicais a luz solar é quase a mesma, o tempo todo. Não há grande diferença entre os vários períodos do ano. No Brasil a distinção entre as quatro estações é mínima. Sem consultar a folhinha, quem sabe dizer em qual estamos? Entre maio e agosto (ou até setembro) temos dez ou doze dias frios. Fora deles, os outros são bem parecidos. Em países como o nosso não há vantagem em observar horário de verão. Tanto que o Brasil é o único país equatorial do mundo que o adota hoje.
Parece discutível o argumento de que esse horário produz grande redução no consumo de eletricidade. Entre nós ele serve, mais que tudo, para garantir o funcionamento confiável do atual modelo energético. O governo visa afastar apagões que escurecem regiões imensas, uma vez que são interligadas. Ao retardar a ligação simultânea da iluminação de todas as cidades, consegue equilíbrio na distribuição do consumo em horário de pico, isto é, quando escurece.

Não entendo do assunto, mas tenho direito de pensar: com as colossais potencialidades de energia eólica e solar de que o Brasil dispõe, por que investir apenas (ou de forma quase exclusiva) na geração de eletricidade a partir da matriz hídrica? Tapando o ouvido à grita de gente séria e entendida, dirigentes do país parecem interessados só em explorar (ou degradar?) nossos fantásticos rios e seus ricos entornos. Ou seria sujeição à ganância de empreiteiras financiadoras de campanhas eletivas? É uma dúvida plausível. Perguntar não ofende, né?

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Honestidade - por padre Orivaldo Robles

Saiu em dezenas de publicações deste Brasil tão precisado de boas notícias. Deu até no Jornal Nacional. Prova de que o fato está fora dos padrões convencionais. É uma daquelas coisas que parecem impossíveis de acontecer por aqui. Que, contadas, as pessoas vão chamar de lorota. Mas não é. É pura verdade.
Aconteceu em Jales, cidade de 50.000 habitantes, no noroeste paulista, distante 590 km da capital do Estado. Quando de sua elevação a município, há mais de 60 anos, minha família morava lá. Na época, era apenas um montinho mal ajeitado de casas. Os moradores não iam além de poucos milhares. Ainda assim, porque seis vilarejos, espalhados em derredor, foram-lhe atribuídos como distritos a fim de assegurar população necessária ao seu novo status. Pois essa é a Jales, que, por esses dias, veio nos devolver a fé na pureza da raça humana, que ainda tem integridade, sim. Pelo menos, alguns dos seus representantes.
Deu-se que, ao lado de outro imbecil, um rapaz de 18 anos foi preso por ter assaltado um posto de combustíveis e uma farmácia. O pai, Dorivaldo Porfírio de Lima, servente de pedreiro, que sobrevive com pouco mais do que o salário mínimo e nem carteira assinada possui, procurou os donos dos estabelecimentos, com intenção de restituir a importância roubada. Assumiu a responsabilidade pela devolução dos 1500 reais correspondentes à parte do filho no duplo assalto. Esclareceu que, embora sua condição financeira não lhe permitisse quitar toda a dívida de uma só vez, estava disposto a saldá-la em dez parcelas. Como garantia, deixou assinadas notas promissórias correspondentes. Justificou: “Ninguém deve ficar no prejuízo por culpa do meu filho. Quando sair da cadeia, ele vai trabalhar para me pagar o que estou pagando em seu lugar”. O dono do posto mostrou surpresa: “Nunca vi isso em lugar nenhum. Muitos não pagam nem devendo, imagine quem não deve”.
A notícia levou-me a recordar outro senhor, morador da mesma Jales, lá nos anos da minha infância. Uma noite, “seu” Pascoal chegou a nossa casa trazendo pela orelha o filho Samuel. Obrigou-o a pedir desculpa ao pai pelo furto de algumas laranjas do nosso pomar. Samuel era colega meu e do Eraldo na escola e nas diversões infantis. Meu irmão e eu ficamos sem saber onde enfiar a cara. O pai argumentou com “seu” Pascoal que aquilo era traquinagem de criança. Mas com o homem não tinha acerto. Era intransigente sobre os valores éticos que impunha à família. Ainda lembro o fecho do episódio. No tribunal da nossa humilde sala, à luz bruxuleante da lamparina, “seu” Pascoal, rigoroso juiz, proferiu terrível sentença: “Prefiro um filho morto a um filho ladrão”. Pouco depois nos mudamos. Nunca mais vi nosso amigo Samuel. Nem dele tive notícia.
Mais de 60 anos separam os dois episódios. São dois pais cujos princípios pesam mais do que dinheiro, luxo, ostentação, prazer... Mais até do que a vida. Para eles, se falta honra, não existe vida. Apenas simulacro dela.
“Seu” Pascoal teve sorte de não viver em nossos confusos dias. Se agarrasse hoje o filho pela orelha, teria de se haver com o ECA, o Conselho Tutelar etc. – perigo que Dorivaldo não corre.

A lamentar que do naipe desses dois não sejam todos os homens e mulheres do Brasil. 

sábado, 10 de agosto de 2013

O Dom Jaime que conheci - por padre Orivaldo Robles

Com ele convivi 55 anos. Figura incrível que não lembro com tristeza. Dele, uma passagem dolorida e jocosa; outra séria. Ambas verídicas. Escrevi-as em 2006:
1. Primeiros anos da Diocese. Maringá não tinha água tratada. Dom Jaime apanhou terrível infecção intestinal, uma giardíase que o acompanhou por longos e sofridos anos. Para ele as visitas pastorais, que jamais deixou, passaram a ser um suplício. Perdeu a conta das vezes que, em capelas rurais onde estava crismando, ao necessitar de um banheiro, verificava que simplesmente não existia tal peça. Por desoladora experiência comprovou a triste verdade do que é relatado como anedota, mas pode bem ter acontecido. Lá no sertão baiano, segundo contam, ter-se-ia um bispo hospedado em casa de rico fazendeiro, senhor de muitas terras e gado, mas de cultura pouca e de hábitos rudimentares. Não vendo nos aposentos nenhum sinal de sanitários, delicadamente o bispo foi informar-se com o anfitrião. O fazendeiro, chamando-o fora, estendeu o braço e apontou: “Olhe, seu bispo, daqui até o Piauí o senhor use à vontade”. Por conta das humilhações sofridas, Dom Jaime desenvolveu verdadeira obsessão por banheiros nas residências dos padres. Sua casa atual, incluindo área de serviço e residência das irmãs, conta com “apenas” dezesseis. Quando lhe foi apresentada a planta da casa paroquial de Santa Maria Goretti, aos existentes ele mandou ajuntar outros três: a casa conta agora com sete sanitários. Diante da exigência do aumento do número de banheiros para a construção da futura casa paroquial de São Mateus Apóstolo, um dos membros da comissão estranhou: “Lá em casa tem sete pessoas e só um banheiro. Aqui, para um padre o senhor quer três.” Mas o bispo não arredou pé: “Ou constroem mais ou não autorizo a casa paroquial. Nem crio a paróquia” (“A Igreja que brotou da mata”, p. 223).
2. Antonio Facci, pioneiro de Maringá e escritor, observou, há não muito tempo, que Maringá se constitui em cidade diferente de todas as outras de igual porte. Não só pela exuberância de uma arborização que ainda preserva parte do verde da mata original. Não só pela pujança de seu comércio, que chegou a ostentar, faz algum tempo, o posto de segunda praça atacadista do Brasil, atrás apenas de São Paulo. Não só pelo número de universidades e cursos superiores, que hoje atraem estudantes do Brasil inteiro e de países vizinhos. Acima de tudo, Maringá é diferente porque, sessenta anos depois de nascida, mantém elevado nível de solidariedade, como acontecia entre os primeiros moradores. As dezenas de obras beneficentes, multiplicadas e visíveis por todos os cantos, refletem a marca de um sofrido começo, quando os habitantes daquela boca de mato cultivavam laços fortes de união, sob pena de sucumbirem às agruras do meio. Não se podia estiolar o espírito de família que os tornava não só unidos, mas responsáveis um pelo outro, e todos, pela cidade que era sua.

Em outros lugares esse calor de vida se perdeu. Não em Maringá. Por uma razão historicamente inegável, segundo Facci. Porque Maringá teve o privilégio de acolher um homem que lhe ensinou, pelo exemplo de anos seguidos, a abrir o coração para as necessidades do outro. Mais ainda: ele transmitiu uma lição que Maringá incorporou à sua experiência de vida: a lição de que o outro não é estranho, é irmão. Esse homem se chama Dom Jaime Luiz Coelho (id. p. 212).

sábado, 3 de agosto de 2013

O papa no Brasil - por padre Orivaldo Robles

Ainda por muito tempo se falará da visita do papa Francisco. Para os mais velhos ela lembrou a primeira visita de um papa ao Brasil. Foi a de João Paulo 2°, em 1980. Tudo era novidade então. A começar pelo beijo no solo do aeroporto, ao desembarcar, em 30 de junho. No espaço de 12 dias, ele percorreu 14 mil quilômetros e 13 cidades: Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Aparecida, Porto Alegre, Curitiba, Manaus, Recife, Salvador, Belém, Teresina e Fortaleza. Uma das mais longas de suas 207 viagens apostólicas, nos quase 27 anos de pontificado (1978-2005). Algumas foram curtas, para o interior da Itália. Assim mesmo, comparado aos predecessores, Karol Wojtyla viajou mais do que todos juntos, de São Pedro a João Paulo 1°. Nessa primeira viagem ao Brasil, aos 60 anos, esbanjava vigor de um atleta. Nascido e criado na Polônia, além de vida extremamente regrada, o tempo livre ele preenchia com a prática do alpinismo. Nenhuma surpresa, portanto, que exibisse um físico invejável. Numa dessas revistas de amenidades, que se folheiam em salas de espera de médico ou dentista, li, na época, declaração de uma socialite brasileira para quem ele seria um dos homens mais sexy do mundo. Que observação profunda, não?
Lá em casa, a primeira visita de um papa teve significado especial. Pouco antes, o pai sofrera um AVC. É uma doença chata, que também afeta o emocional, levando o paciente a chorar por qualquer motivo. Qualquer motivo, uma pinoia! Vá saber o que muda no íntimo do coitado. O pai sempre fora um leão diante de dificuldades. Agora, a todo o momento, enchia os olhos de lágrimas. Comendo ou bebendo, se, do canto da boca, lhe escorria comida ou bebida; se derrubava o garfo ou o copo, parava na hora e começava a chorar. Era uma humilhação sentir-se incapaz de atos rotineiros. Só com dificuldade entrava em automóvel ou alcançava o meio-fio da calçada. Eu tinha que lhe sustentar a perna, cuidando que não tropeçasse feito bêbado. 
Por isso, aquela a visita do papa lhe fez enorme bem. Foram 12 dias cheios de novidade e de intensa emoção. Ele passava diante da TV de manhã à noite. A Globo não mostrava outra coisa. Cobriu todos os passos do papa. De Marialva eu vinha ver o pai. Encontrava-o na salinha minúscula, sentado no sofá, de olhos fitos na TV. Lacrimejantes, quase sempre. Não conseguia ver o papa sem chorar. A mãe lhe dava, em vez de lenço, uma toalha de rosto.
Seu AVC não foi daqueles de aleijar. Ele recebeu bom atendimento médico. Além da terapia lacrimal da televisão. A seu modo, tudo funcionou. Menos de um ano depois, andou no caminhão Mercedes 1113 de um sobrinho. Sem ajuda de ninguém para subir ou descer.
Agora, na Jornada Mundial da Juventude, o papa Francisco fascinou a todos. Difícil comparar as duas visitas. Cada uma teve sua magia e sedução. O papa, por si, não muda ninguém. Nós é que precisamos mudar para uma vida de maior fraternidade.

Senti que o pai não estivesse ali na sala, na frente da TV. Estou certo de que, de novo, se desmancharia em lágrimas. Espanhol, não precisaria de tradução para os discursos feitos num castelhano de sotaque argentino. Como qualquer brasileiro, deixar-se-ia encantar por esse homem que, embora sendo o papa, demonstra a mesma simplicidade que um pobre lavrador, no sofá da sala, conversando diante da TV.

sábado, 20 de julho de 2013

O bom rabi e o cão - por padre Orivaldo Robles

Uma fábula oriental conta que, nos arredores de Jerusalém, várias pessoas distraíam-se a contemplar um cão morto, estirado no caminho. Mostravam nojo e desprezo, ao tempo em que emitiam opiniões sobre o motivo de o terem arrastado até ali. “Deve ter sido um daqueles cães vagabundos, que invadem quintais para roubar comida”, disse um. “Com esse pelo coberto de rabugem, bem se vê que foi um cão vadio, que nunca teve dono”, arriscou outro. Um terceiro emendou: “Vai ver, algum morador da redondeza o matou e abandonou-o aí para os corvos”. Essas e ideias de igual teor eram expostas em voz alta e sem disfarce. Foi quando se achegou um desconhecido. Seu rosto refletia luz invulgar, que atraía atenção e respeito. Estava claro que ouvira os comentários feitos. Lançou sobre o animal morto um olhar de piedade e arrematou com doçura: “Nenhuma pérola seria capaz de brilhar tanto como a brancura dos seus dentes”.
A admiração tomou conta até dos mais afastados. Voltaram-se todos para ele. E como outro grupo que, em diferente oportunidade, lhe tinha exigido a condenação de uma mulher surpreendida em adultério, cabisbaixos e envergonhados, um por um, começaram a retirar-se. Os mais velhos, na frente. Um jovem de cabeleira farta e barba eriçada arriscou o palpite: “Esse não será Jesus de Nazaré, o rabi de quem falam maravilhas? Quem, senão ele, veria qualidades até num cão morto”?
Conheço a fábula desde não sei quando. Na realidade, faz muito tempo. O texto apresenta, aqui ou ali, pequenas variantes. No entanto, é sempre o mesmo relato. Nunca lhe soube a origem até que, agora, ao pesquisar, vim saber que está no livro “Lendas do bom rabi”, de Malba Tahan, pseudônimo de Júlio César de Mello e Souza (1895-1974). Apaixonado por Matemática e pela cultura árabe, ele dignificou, como poucos, a carreira de professor, que exerceu durante a vida inteira.
Desculpe-me, inusitado leitor, andei divagando. A fábula vale pela sua moral. Não é fato verídico, porém aduz precioso ensinamento. Atual também.
No trânsito, nunca uma criança do veículo à sua frente lhe mostrou a língua? Calculo que você ficou sem graça. “Que eu fiz para merecer isso?”, deve ter-se perguntado. Ligue não, assim é nosso mundo. Sartre propôs que “o inferno são os outros”. Na sociedade agressiva e injusta em que vivemos, filhos são preparados para competir na vida adulta. Aprendem, desde cedo, a encarar os outros como adversários. Como concorrentes interessados em roubar aquela vaga na creche, no hospital, na universidade, no emprego, no trânsito...
“Quem é o meu próximo?” (Lc 10,29), pergunta-se no Evangelho. A sociedade atual não dá a mínima para a resposta do Mestre. Já tem a sua: “Próximo é o sujeito no qual devo pisar sempre. Ele não tem nenhuma qualidade boa. O próximo não presta”. Ele é a Geni da música do Chico Buarque. Ou pior.

É!... Perdemos na poeira do tempo aquilo que o bom rabi viveu e transmitiu. Para muitos a sua doutrina transformou-se num amontoado de conselhos para consolar perdedores. A História registra e admira os feitos dos que venceram. Dos senhores de povos e nações. Daqueles cujas conquistas se adubaram no ódio e na violência. A isso chamam civilização. Também dão o nome de progresso.

sábado, 13 de julho de 2013

O profeta e a cidade - por padre Orivaldo Robles

O profeta é um visionário. Seu olhar penetra o que a outros é inatingível. Ele colhe na intimidade com Deus o talento para ditos que encantam. É vizinho, senão gêmeo do poeta. Como este, transmite noções com um talento que embasbaca. À gente ignara ocorre, por vezes: “Como não pensei nisso”? Mas dom é dom: não se dá a quem quer. Nada se faz por merecê-lo. Quem o possui simplesmente o ganhou. Para desfrute não de proveito pessoal, mas aberto ao bem de todos.
No século 8° a. C., em anúncio dos tempos messiânicos, Isaías formulou uma proposta assombrosa. E, ao mesmo tempo, encantadora: “O lobo será hóspede do cordeiro, o leopardo vai se deitar ao lado do cabrito. O bezerro e o leãozinho pastarão juntos; uma criança pequena tangerá os dois. O urso e a vaca pastarão unidos, enquanto suas crias descansarão lado a lado. O leão comerá capim como o boi. O bebê vai brincar no covil da víbora; a criancinha enfiará a mão na toca da serpente” (Is 11,6-8). A quem não sensibiliza o lirismo da descrição? Que não deixa, ao mesmo tempo, de ser, em toda a essência e vigor, palavra de Deus. Instado a propor ao reino de Judá o projeto divino, reúne Isaías e harmoniza dons de profeta e poeta.
No final do livro, o texto de um terceiro profeta, distinto também do Dêutero-Isaías (Is 40 a 55), descortina o clima do retorno a Jerusalém, ao fim do exílio da Babilônia (587-538): “Alegrai-vos com Jerusalém e exultai com ela todos vós que a amais; tomai parte em seu júbilo todos vós que choráveis por ela. Assim podereis sugar o leite de seus seios acolhedores. Podereis sugar e vos deleitar em seus peitos generosos. Farei correr para ela a paz como um rio e a glória das nações como torrente transbordante. Sereis amamentados, carregados ao colo e acariciados sobre os joelhos. Como mãe, que acaricia o filho, assim vos consolarei. E sereis consolados em Jerusalém” (Is 66,10-13).
Jerusalém quer dizer morada da paz. No mais profundo anseio bíblico ela é vista como cidade da felicidade, da paz. Não da mera ausência de conflitos. Mas da harmonia e total bem-estar das pessoas. Esta é a Jerusalém anunciada pelo profeta. No fundo, a cidade pela qual ansiamos todos nós. Ninguém há que não sonhe com uma cidade que o amamente, carregue no colo, acaricie sobre os joelhos. Em qualquer idade, afirmamos nossa necessidade de colo. O regaço materno será, por toda a vida, o modelo cabal de felicidade a que nos transportam nossas lembranças.
Que privação acha o leitor que denunciavam os manifestantes do mês passado? Não por acaso, a imensa maioria se compunha de jovens. Expressavam o desejo de que sua cidade fosse morada da paz para todos. Da paz que assossega por inteiro o coração. Por isso, assim do nada, com só o recurso das redes sociais, fizeram ecoar seu grito por São Paulo e Rio. Não só: a partir daí, por cidades do Brasil inteiro. Do Rio Grande do Sul à Paraíba e Roraima. Preso na garganta eles traziam não o grito por uns poucos centavos da tarifa urbana, mas pela falta de saúde, escola, segurança, locomoção, trabalho, dignidade, infraestrutura, respeito, futuro... Pela necessidade de vencer a corrupção, a desigualdade social, a falta de oportunidades.

Agora, se fala dos oportunistas, caroneiros, aproveitadores... Dos diversionistas que defendem a própria pele e o próprio poder. Que, apesar deles, não se apague a justa aspiração por nossas Jerusaléns. Por nossas cidades da paz. Cidades nas quais vejamos respeitada a dignidade de todos os irmãos. Até da maioria, que não conhece como é a vida no andar de cima.

sábado, 6 de julho de 2013

Lições de futebol - por padre Orivaldo Robles

Sabe aquela propaganda do bancário que cresceu ao lado do amigo e, para cada etapa que cita, vai repetindo: “Ele, titular; eu, banco”? Fosse comigo, a frase seria: “Ele, titular; eu, gandula”. Nem banco seria. Futebol, devo admitir, nunca foi exatamente minha praia. Apesar de eu ter sido fominha por bola e jogar o mais que podia. Foi o único esporte que pratiquei. Mas, se tivesse cometido a burrice de tentá-lo profissionalmente, na certa morreria de fome. Em campo fui sempre ponta-direita. Daqueles antigos, que vestiam a camisa sete, carregavam a bola até à linha de fundo e cruzavam, na esperança de que aparecesse alguém na área para mandá-la às redes. Tive desempenho medíocre, reconheço. Marquei também gols importantes. Menos, porém, do que se contam nos dedos das mãos.
Como a maioria dos brasileiros, aprecio uma partida de futebol bem jogada.  Sobretudo da seleção brasileira. Só que não me deixo engambelar por manobras politiqueiras, que exploram a paixão do povo com o propósito de angariar simpatia e votos. Interesso-me pela peleja desportiva, pelo esforço dentro de campo, pela vitória honesta. Se por goleada, melhor ainda. Sou do tempo em que, nos jogos da seleção brasileira, a pergunta era de quanto tinha ganhado. Ela não perdia.
Reconhecendo, embora, os problemas de toda ordem que, nestes dias, assolam o País, não me pude furtar ao sabor da vitória, domingo passado, 30 de junho, sobre a seleção espanhola de tantas e merecidas glórias. A Copa das Confederações me deu enorme alegria. Eu vinha com a seleção “roja” atravessada na garganta. Queria que a final fosse Brasil x Espanha. Mas estava certo de que a Espanha venceria.
Eu, 47 milhões de espanhóis residentes na Espanha e todos os outros espalhados pelo mundo. Era quase impossível nossa equipe, reunida há pouco tempo, vencer uma potência dirigida há cinco anos pelo mesmo treinador e composta pelos melhores jogadores da Europa. Para eles deve ter sido muito duro engolir a derrota. Pior ainda, pelo placar elástico e pelo domínio brasileiro em campo.
Mas nada justifica patriotada. Nem desvalorização de conquista alheia. Como tentou jornalista espanhol, ao entrevistar o treinador e, em seguida, o goleiro da Espanha. Por duas vezes, ele insistiu em atribuir a derrota ao cansaço dos jogadores. Ao fato de, três dias antes, contra a Itália, terem sustentado uma partida extenuante, que se prolongou até ao tempo extra e às penalidades. Autênticos e elegantes, treinador e arqueiro reconheceram que os brasileiros tinham jogado melhor que os espanhóis. Simplesmente isso.
Esqueceu-se o repórter que, na 1ª fase, a Itália tivera adversários pedreira, como Brasil, México e Japão. Enquanto isso, a Espanha enfrentara Uruguai e as babas Nigéria e Taiti. Na final, em Salvador, a Itália jogou contra o Uruguai, sob o sol das treze horas. Teve nova prorrogação e nova disputa de penalidades. E venceu. Contra o Brasil, no Maracanã, a Espanha jogou os 90 minutos regulamentares, à noite e em temperatura bem mais amena. Quem experimentou maior cansaço?

Por que certas pessoas sentem dificuldade em admitir que outras – em idênticas ou até em piores condições – levem sobre elas uma justa vantagem? Será tão difícil suportar que outros nos superem em algum aspecto? Por que a ânsia de ser superior sempre e em tudo?  

sábado, 29 de junho de 2013

Por que criança chora? - por padre Orivaldo Robles

Memória de idoso é uma encrenca. Sem mais nem menos, revolve lá no fundo e desentoca coisas que ninguém conhece ou recorda. É o caso do exemplo a seguir. Sem esforço e com assiduidade, me vem à cabeça uma canção encontrada num dos meus velhos LP nos quais, por falta de tempo ou por comodismo, faz séculos que não mexo. Aos menos vividos acho bom esclarecer que LP é abreviatura de “long playing”. Designa um antigo disco, dito de vinil, que talvez tenham visto em figura. Nele eram gravadas normalmente doze melodias. Foi o sucessor do disco de 78 r.p.m. (rotações por minuto). Por causa do tamanho, também este, mas especialmente o outro, recebe hoje o apelido de bolachão. O LP apareceu na fase anterior ao CD, ou “compact disc”. Entendo que para nossos atuais garotos CD também não queira dizer nada. É coisa do tempo do onça.
A melodia a que me refiro começava com as palavras: “Señora Santana, por qué llora el niño? Por una manzana, que se le ha perdido”. Traduzindo: “Senhora Santa Ana, por que o menino está chorando? Por uma maçã que ele perdeu”. Canção de ninar, comum no México e em Cuba, com variantes diversas na letra, ora mais curta, ora mais extensa. Canta-se normalmente no período natalino.
Criança é um serzinho especial, feito de meiguice e mel, que amolece até os corações mais embrutecidos. Não há quem não se enterneça com seu pranto. Não falo da manha ou birra, fáceis de identificar, que mostram esperteza em levar os adultos no bico, quando o interesse é ganhar colo ou satisfação de qualquer desejo. Refiro-me ao pranto genuíno, sentido, que nasce lá no fundo e aflora em lágrimas, aos borbotões, correndo num rostinho marcado pela tristeza. Quem consegue manter-se indiferente a esse quadro? Tenho para mim que o ornato de um rosto infantil haveria que ser o sorriso. Só sorriso permanente e radioso. Estridente feito bica d’água batendo em pedras. Choro de criança é desventura que nunca devia acontecer. É infelicidade no estado puro, confissão da absoluta impotência de escapar das garras de uma dor incompreendida e atroz. Em carinha de criança, lágrima teria que ser anormalidade. Dor teria que ficar reservada para nós, adultos, como castigo para os pecadores que somos. Nunca ferir quem ainda nem descobriu o que é viver. Quem não aprendeu a andar com os próprios pezinhos. Nem é capaz de explicar aquilo que sente.
Por qué llora el niño? Ah, por inúmeras razões. Especialmente niño brasileiro. Chora de fome. De frio. De medo. De solidão e abandono. De doença e dor. De tristeza. De ameaça à própria vida. Da incerteza quanto ao futuro. Do terror que provoca a violência presente em cada esquina...
Ao observar o que, nestes dias, vem acontecendo Brasil afora, a gente sente vontade de questionar: Que ocultas e seculares dores a voz (não rouca, mas muito clara) das ruas está trazendo? Quantas crianças mudas reclamam através dos jovens, que bradam alto em todos os quadrantes do País? Milhões de queixas, engolidas pelos inocentes donos das lágrimas que ninguém secou, vêm agora expressas pelos seus porta-vozes, nas ruas.

Ninguém pode desprezar o clamor que sobe das ruas. Manifestantes gritam com uma força que crianças não têm. Não deve passar em branco a oportunidade que o Brasil inteiro tem de escutá-los. 

sábado, 22 de junho de 2013

Vem pra rua - por padre Orivaldo Robles

Terça-feira passada, dezessete e trinta, mais ou menos. Nariz pingando como torneira que não fecha, eu ia apressado à farmácia do canto da praça. Faz tempo, me deram um cartão da melhor idade. Melhor para quem? Para os laboratórios, com certeza. São os que lucram com nossas doenças. O cartão me dá pequeno desconto. Não posso desprezar; tomo uma batelada de remédios de uso contínuo.
Enquanto caminhava, eu ouvia o alto-falante convocando as pessoas para o início da manifestação. Lamentei a coriza e o mal-estar que sentia. Mais que isso, porém, lamentei não possuir a disposição de 1992, da caminhada pelo impeachment do presidente Collor. Naquela vez, saí às ruas no meio de uma multidão composta, em sua maioria, por adolescentes conhecidos como “caras pintadas”. Pintaram a minha também. Tempo bom. Não há setentão que não recorde com gosto a vida que levava há vinte anos. Desta vez, tomei direto o rumo de casa. Nas ruas, jovens risonhos – de novo, quase todos adolescentes – portavam cartazes pintados à mão. Riam e aprontavam todo o barulho que a hora e o lugar lhes permitiam.
Mais tarde, já em casa, um forte alarido de vozes invadiu minha sala. Que seria? Tentei desligar-me. Não consegui. O barulho não dava sinal de que ia parar. Larguei a nebulização que estava fazendo e me aproximei da janela. Onze andares abaixo, ocupando calçadas e o leito da rua, movia-se uma baita aglomeração de gente. Li, dia seguinte, que dez mil pessoas a compunham. Não sei quem contou. Não disponho de meios para conferir, então tenho que acreditar. Caminhavam ao som de apitos, de assobios, de buzinas dos veículos parados, de instrumentos de percussão e de vozes, que gritavam em comando: “Vem pra rua”! Visto do alto, era um bonito espetáculo. Assim, ao vivo, eu nunca tinha assistido. Permaneci encostado à janela pelo espaço de uma boa meia hora. Até que passaram todos, e os automóveis voltaram a se pôr em movimento.
Qual o motivo da grande manifestação? Não, por certo, só os vinte centavos de aumento na tarifa do transporte urbano. Isso foi a gota d’água. O povo já vinha, desde muito, com insuportável clamor entalado na garganta. Esperava apenas o momento de pôr para fora. Começando pela maior cidade do país, por todos os cantos, explodiu a indignação que, nos anos 80, Ulysses Guimarães chamara de “a voz rouca das ruas”. Rouca podia ser a voz dele, próximo dos 70 anos de idade. A das ruas era límpida e vibrante. Escutei-a sob a minha janela. Adolescentes, jovens e adultos davam, na verdade, um recado a todos os que detêm poder: “Cansamos de ser tratados como um bando de patetas. Basta de políticos corruptos e incompetentes. Parem de esbanjar o nosso dinheiro. De sucatear a Educação, a Saúde, a Infraestrutura, a Segurança, o Transporte... Exigimos um país decente. De vergonha na cara”. Com o ímpeto da idade, uma jovem do Rio de Janeiro depositou no cartaz a sua esperança: “Desculpe o transtorno. Estamos mudando o País”.

Há quem duvide. Quem veja nisso puro fogo de palha aceso por gente que sequer usa ônibus urbano ou trem de subúrbio. Quem sabe em que vai dar? Mas uma caminhada de mil quilômetros – ensina a sabedoria chinesa – começa pelo primeiro passo. Vai saber se não estamos assistindo ao despertar de um novo Brasil? De um Brasil disposto a se erguer do berço esplêndido? Brasil que cansou de ser um gigante deitado?