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quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Carta de uma mãe que perdeu tragicamente o filho.


Querida mãe,

O que dizer nesta hora tão difícil? O que ouvir quando todos e tudo ao redor parecem sair de um enorme pesadelo e o ruído das vozes que se seguem mal chegam aos ouvidos?
Quando o ar não é mais suficiente e a dor da separação nos leva a sala de parto novamente?
Os dias que se seguirão, parecerão noites e as noites, dias sem fins.
Para cada momento uma lembrança e a ferida que não cicatriza, parece ainda mais exposta e vulnerável com o passar do tempo, dizem que o tempo é o melhor remédio. Creia, amada, ele é amargo demais.
Só há um lugar para onde ir, este refúgio que encontrei tenho tentado ensinar o caminho à outras mães, pois sei que o que nos foi tirado, nosso bem maior, o pequeno ser que embalamos, amamentamos, cuidamos e amamos, nada poderá traze-los de volta, sei que se chorássemos todas as lágrimas e gritássemos todos os gritos de dor que estão contidos em nossas almas, mesmo assim não seriam suficientes para trazê-los.
No primeiro momento tentamos achar o culpado, o rapaz que dirigia estava em alta velocidade. Certamente foi ele, mas e Deus?
Onde estava Deus que não viu o meu lindo moço de cabelos fartos e sorriso encantador, que envolvia todos com suas histórias deixando no ar a sensação de ficar após ter ido?
Porque Deus não fez algo?
Querida mãe, a primeira lição que aprendi, foi entender que Deus me amou e sua misericórdia resgatou meu filho no momento de dor.
Se há um lugar perfeito, onde deixaríamos nossos filhos este é nos braços do Pai.
Deus não interfere, nos deu um mundo para nele vivermos em harmonia e se existe um culpado, infelizmente somos nós!
Aceitamos todas as coisas e só nos importamos quando é o NOSSO filho.
Esta nação está ferida e ferida de morte, o sangue de inocentes está literalmente lavando o asfalto de nossas cidades.
Será necessário morrer um filho de cada família para que algo seja feito?
Nossos jovens estão sendo arrancados de seus lares e sua famílias estão dilaceradas com tamanha dor, o medo nos invade pois os que nos restam ainda, precisam viver neste país sem leis para assassinos de trânsito.
Até quando???
Não terá apenas um deputado que se importe e leve ao congresso as mães que perderam seus filhos nesta guerra horrenda e injusta?
Faltará espaço em Brasília, será maior que qualquer congresso já realizado.Nós somos as mães que prepararam seus filhos para servir a nação!
Meu filho falava quatro línguas, tinha duas faculdades, não usava drogas, não era chegado a bebidas, sempre usou o cinto de segurança, foi morto por um jovem deputado que estava em alta velocidade, embriagado e com a carteira com mais de 130 pontos. Foi decaptado, estraçalhado, moído, não matou apenas meu filho e seu amigo, matou a mim também.
Ensina a criança no caminho em que deve andar e até ficar velho não se desviará dele.
Não podemos apenas chorar, temos que nos unir e de alguma forma mudar o país em que vivemos, para que os outros filhos, os que nos restam, possam ter a oportunidade de viver.
Meu refúgio é Deus, meu porto seguro, minha esperança de rever meu amado.
Se Deus salvasse o seu e não o meu então seria um Deus injusto!
Se precisamos mudar e algo precisa ser feito, então faremos para que outras mães, não venham a sofrer a amargura da separação tão precoce de jovens que antes enchiam a casa de alegria, e agora enchem cemitérios.
Querida mãe, sei que parece impossível mudar um país, mas tambem sei que um país é feito de famílias que desejam o melhor para seus filhos.
Um pai sonha os sonhos de seu filho desde quando nasce e vive como se fôssem seus.
Se é triste e inconsolável a dor da perda de um filho, muito maior será nossa dor se não fizermos nada e perdermos novamente, e creia eu sei do que falo.
'Ninguém cometeu maior erro do que aquele que não fez nada só porque podia fazer muito pouco'
Se cada mãe, pai, família, cada cidadão fizer um pouco, teremos muito!
A justiça é para os vivos, os mortos não precisam dela!
E a nação ouvirá o nosso clamor...

Carta escrita por Christiane Souza Yared que perdeu o filho vítima de um acidente envolvendo um deputado paranaense que dirigia alcoolizado, a 160 Km/h e com a carteira de habilitação suspensa. A carta é endereçada a atriz Cissa Guimarães que recentemente também perdeu o filho vítima de atropelamento. O motorista, supostamente participava de um racha na hora do acidente.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Finados, Dez Pensamentos



Transcrevo aqui texto de Dom Orlando Brandes, arcebispo de Londrina, sobre o Dia de Finados. Serve para nossa reflexão sobre o sentido desta data.

1. O mundo passa. A vida é breve. A morte é certa. Quem faz o bem e cumpre o dever não precisa ter medo da morte, pelo contrário, espera a vida. O bem já é o céu antecipado. Nosso corpo na eternidade será glorioso, incorruptível, espiritual, imortal. O que parece ser um fim, um fracasso é na verdade um começo, um início. Quem tem fé já vive o início da festa eterna.


2. O cemitério é uma cidade viva. Sim, ali está viva a saudade e a recordação da vida dos nossos entes queridos. É cidade da saudade, da esperança na ressurreição, cidade que leva a pensar e até a mudar de vida. É a cidade da igualdade social, da paz, da transformação da morte em vida.

3. Os túmulos são também berços. Deus promete abrir os túmulos e então nascemos para a nova vida junto Dele. Eis o início da nova vida. A morte é fim da vida terrena e início da vida nova, da plenitude da vida. Descemos para o seio da terra e entramos no seio de Abraão, isto é, de Deus. Descemos ao túmulo, para subir aos céus. Voltamos para a terra para voltar ao Criador e com Ele conviver.

4. Levamos flores neste dia. A flor vem de uma semente e de um botão que morreu. Eis o que é a páscoa pessoal. A flor é o símbolo de nossa realidade pascal. Ela é também sinônimo de gratidão, respeito, carinho, homenagem para quem esteve entre nós e está vivo em Deus, no jardim celeste e suas mansões. Transformemos o deserto em jardim.

5. Neste dia costumamos acender velas. De fato, a luz das boas obras que nossos mortos praticaram ainda ilumina. O esplendor do bem, a luminosidade do amor não passa. O bem não morre. A vela acesa é símbolo da fé que transforma as trevas em luz e projeta o futuro. Somos como velas que quanto mais se consomem, tanto mais iluminam. Brilhe vossas boas obras, pediu Jesus.

6. Finados é dia de reflexão, de retiro, de interiorização. A morte nos faz todos iguais. Acabam as classes sociais. A morte faz pensar. Ela é escola de filosofia. Impele a vencer ilusões, enganos porque ajuda a parar, a rezar, a rever a vida. A morte faz parte da vida, é nossa irmã. Ela é parto e porta para a plenitude, a glória, a eterna felicidade. Morte é passagem para outra margem, é ponte que leva ao rumo certo.

7. As coroas sobre os túmulos querem lembrar a coroação da vida, do bem, do amor que os nossos mortos realizaram. No céu seremos coroados pela S. S. Trindade, tomaremos posse do reino. A vida termina com o coroamento da pessoa humana, chamada a reinar com Cristo. Quem combateu o bom combate, receberá a coroa da glória.

8. A morte é benção porque através dela entramos na vida. Ela é condição para a glorificação dos pecadores perdoados. A face do Senhor é vossa verdadeira pátria. A morte não é inimiga, porque ela ajuda a viver com retidão e a praticar a justiça, o bem, o amor. Pensar na morte não é patologia, é sabedoria. “Pensa na morte e não pecarás”. Diante dos túmulos nós rezamos: “tu foste o que eu sou, eu serei o que tu és”.

9. A pior morte é o pecado, ou seja, a morte espiritual. A boa morte que devemos desejar e pedir, é a morte do egoísmo, do mal, do pecado, portanto a morte mística que nos torna altruístas, servidores, solidários. A morte biológica foi vencida pela ressurreição do Senhor. Jesus matou a morte. Somos seres de esperança.

10. Levaremos o amor com que fizemos todas as coisas. O amor não passa, o bem é eterno, a alma é imortal. Nossas boas obras são passaporte para o céu. Nossa vida não é tirada, mas transformada. A promessa de Jesus a quem se converte é esta: “hoje estarás comigo no paraíso”. Não há reencarnação na fé cristã. O sangue de Jesus é que salva e a fé nos torna justos, puros, santos, agradáveis a Deus. Um gesto de amor vale mais que toda beleza das coisas e a massa do universo. Somos uma cloaca, diz Pascal, que o sangue de Jesus lavou e perfumou. Nossa grandeza está em reconhecer nossa miséria e confiar na misericórdia.