terça-feira, 26 de janeiro de 2010

domingo, 17 de janeiro de 2010

Haiti, uma lição



O sofrimento, a dor humana, as tragédias sempre levantam muitas questões.
Por que? Eis a maior delas...
Diante da tragédia recente no Haiti tantas questões são levantadas. E uma delas sempre se repete: onde estava Deus? Onde está Deus? Por que Deus não fez nada? Por que Deus deixou acontecer?
É a manifestaçção de nossa angústia, de nossa revolta. O reconhecimento de quão frágil é a vida humana.
Jesus já lembrava: se o dono da casa soubesse a que horas viria o ladrão, vigiaria para que sua casa não fosse saqueada. Portanto, vigiai e orai porque não sabeis o dia nem a hora.
Um alerta para que estejamos vigilantes na oração e na prática da justiça. Uma justiça que se colocada em prática poderia ter amenizado em muito as consequências do terremoto no Haiti.
Que não nos esqueçamos tão cedo de tudo isso...

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Cristo, Luz do mundo



“O povo, que andava na escuridão, viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu” (Is 9,1)


Na Igreja da Natividade em Belém-Palestina, no local onde acredita-se tenha sido a gruta da natividade, os padres responsáveis pelo local mantêm uma vela acesa permanentemente.
Conta a história que um jovem de um país distante da Palestina resolveu ir até o local da gruta e ali acender uma chama para trazer às pessoas de sua comunidade e assim todos poderem celebrar o Natal com uma vela acesa naquela chama que o jovem trouxera de Belém.
Porém a empreitada não foi nada fácil. Cruzando a pé longos percursos através de estradas desertas e perigosas, montanhas e desfiladeiros, chuva, ventos, nevascas o jovem conseguiu chegar até Belém. Ali acendeu uma tocha e fez o caminho de volta pra casa. E mais uma vez a jornada não foi fácil. Desta vez foi pior ainda porque ele tinha que manter aquela tocha acesa a todo custo se quisesse que a luz de Belém chegasse até seus irmãos e irmãs na comunidade.
Mas depois de passar por todo tipo de dificuldades e percalços conseguiu chegar em casa mantendo acesa a chama que trouxera de Belém. E assim toda a sua comunidade pode celebrar o Natal com a chama de Belém acesa em suas casas.
Isto, que não passa de uma história, pode significar muito bem o sentido do Natal para cada cristão.
Também nós no dia do nosso Batismo nos tornamos responsáveis em manter a chama da fé, a luz de Cristo, acesa em nossas vidas. E este não é um compromisso fácil. Tantos são os percalços que precisamos superar para manter a luz de Cristo acesa em nós.
Quantas vezes nos sentimos desanimados em viver os valores do reino de Deus. As propostas de um mundo, nem sempre justo para com todos, parecem ser mais sedutoras e fáceis. Quantas vezes parecem nos dizer “para quê todo esse esforço, para quê tantas renúncias e sacrifícios, por que ser diferente dos outros, todo mundo faz você também pode fazer...” E nos deixamos seduzir...
Porém, ao final, nasce a desilusão, o arrependimento, o vazio... E o desejo de encontrar a felicidade, de preencher aquele vazio interior continua.
Somente quando percebermos que Deus pode nos dar a felicidade duradoura, a força para enfrentar as dificuldades, o discernimento para fazer as escolhas, então sim, estaremos vivendo o verdadeiro sentido do Natal. Porque uma luz brilhou nas trevas, um filho nos foi dado...e seu nome é Emanuel, Deus-Conosco.
E nós somos chamados a ser portadores desta luz que ilumina todas as trevas. Assim como o jovem da nossa história, devemos ser fortes para não deixar se apagar a chama da fé. E que possamos levar essa chama em todos os lugares por onde formos. Que sejamos verdadeiros missionários e discípulos de Jesus Cristo para que o mundo tenha mais vida.


sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Finados, Dez Pensamentos



Transcrevo aqui texto de Dom Orlando Brandes, arcebispo de Londrina, sobre o Dia de Finados. Serve para nossa reflexão sobre o sentido desta data.

1. O mundo passa. A vida é breve. A morte é certa. Quem faz o bem e cumpre o dever não precisa ter medo da morte, pelo contrário, espera a vida. O bem já é o céu antecipado. Nosso corpo na eternidade será glorioso, incorruptível, espiritual, imortal. O que parece ser um fim, um fracasso é na verdade um começo, um início. Quem tem fé já vive o início da festa eterna.


2. O cemitério é uma cidade viva. Sim, ali está viva a saudade e a recordação da vida dos nossos entes queridos. É cidade da saudade, da esperança na ressurreição, cidade que leva a pensar e até a mudar de vida. É a cidade da igualdade social, da paz, da transformação da morte em vida.

3. Os túmulos são também berços. Deus promete abrir os túmulos e então nascemos para a nova vida junto Dele. Eis o início da nova vida. A morte é fim da vida terrena e início da vida nova, da plenitude da vida. Descemos para o seio da terra e entramos no seio de Abraão, isto é, de Deus. Descemos ao túmulo, para subir aos céus. Voltamos para a terra para voltar ao Criador e com Ele conviver.

4. Levamos flores neste dia. A flor vem de uma semente e de um botão que morreu. Eis o que é a páscoa pessoal. A flor é o símbolo de nossa realidade pascal. Ela é também sinônimo de gratidão, respeito, carinho, homenagem para quem esteve entre nós e está vivo em Deus, no jardim celeste e suas mansões. Transformemos o deserto em jardim.

5. Neste dia costumamos acender velas. De fato, a luz das boas obras que nossos mortos praticaram ainda ilumina. O esplendor do bem, a luminosidade do amor não passa. O bem não morre. A vela acesa é símbolo da fé que transforma as trevas em luz e projeta o futuro. Somos como velas que quanto mais se consomem, tanto mais iluminam. Brilhe vossas boas obras, pediu Jesus.

6. Finados é dia de reflexão, de retiro, de interiorização. A morte nos faz todos iguais. Acabam as classes sociais. A morte faz pensar. Ela é escola de filosofia. Impele a vencer ilusões, enganos porque ajuda a parar, a rezar, a rever a vida. A morte faz parte da vida, é nossa irmã. Ela é parto e porta para a plenitude, a glória, a eterna felicidade. Morte é passagem para outra margem, é ponte que leva ao rumo certo.

7. As coroas sobre os túmulos querem lembrar a coroação da vida, do bem, do amor que os nossos mortos realizaram. No céu seremos coroados pela S. S. Trindade, tomaremos posse do reino. A vida termina com o coroamento da pessoa humana, chamada a reinar com Cristo. Quem combateu o bom combate, receberá a coroa da glória.

8. A morte é benção porque através dela entramos na vida. Ela é condição para a glorificação dos pecadores perdoados. A face do Senhor é vossa verdadeira pátria. A morte não é inimiga, porque ela ajuda a viver com retidão e a praticar a justiça, o bem, o amor. Pensar na morte não é patologia, é sabedoria. “Pensa na morte e não pecarás”. Diante dos túmulos nós rezamos: “tu foste o que eu sou, eu serei o que tu és”.

9. A pior morte é o pecado, ou seja, a morte espiritual. A boa morte que devemos desejar e pedir, é a morte do egoísmo, do mal, do pecado, portanto a morte mística que nos torna altruístas, servidores, solidários. A morte biológica foi vencida pela ressurreição do Senhor. Jesus matou a morte. Somos seres de esperança.

10. Levaremos o amor com que fizemos todas as coisas. O amor não passa, o bem é eterno, a alma é imortal. Nossas boas obras são passaporte para o céu. Nossa vida não é tirada, mas transformada. A promessa de Jesus a quem se converte é esta: “hoje estarás comigo no paraíso”. Não há reencarnação na fé cristã. O sangue de Jesus é que salva e a fé nos torna justos, puros, santos, agradáveis a Deus. Um gesto de amor vale mais que toda beleza das coisas e a massa do universo. Somos uma cloaca, diz Pascal, que o sangue de Jesus lavou e perfumou. Nossa grandeza está em reconhecer nossa miséria e confiar na misericórdia.

Nosso Planeta, Nossa Casa


Este é o nome de um filme/documentário sobre a situação do planeta Terra. Com imagens belíssimas, uma trilha sonora envolvente, o documentário tem uma única personagem: a Terra. É um depoimento emocionado do nosso planeta que se sente ameaçado por nós, seres humanos.
Vale a pena assisti-lo e divulgá-lo. Serão as pequenas atitudes que farão a diferença.

domingo, 25 de outubro de 2009

Carta de Dom Anuar Battisti aos Jovens - Conclusão

5 - JOVEM, AGENTE DE TRANSFORMAÇÃO

Somos pessoas inseridas numa cultura, temos determinados hábitos, fazemos certas coisas por força do tempo e do espaço em que vivemos.
Somos seres históricos e situados numa localidade concreta. Estamos todos inseridos num ambiente de pessoas, seja na família, na Igreja, no trabalho, na escola etc. Todos temos relações humanas que nos acrescentam e nos transformam. Se você, jovem, escolher este caminho de maturidade cristã – busca do sentido da vida, integrando as dimensões da pessoa humana, vivendo uma afetividade saudável – o próximo passo será inevitável: ser agente de transformação no mundo a serviço do Evangelho. O jovem que faz todo este caminho de busca da felicidade encontra, necessariamente, a transformação de si. É impossível continuar sendo o mesmo depois de uma verdadeira tomada de consciência. Quem toma consciência de si transforma sua vida, muda seus hábitos, coloca-se no grupo dos que trabalham por um mundo melhor. Isso é ação do Espírito Santo, que transforma os caídos e machucados em pessoas revigoradas, tornando-os luz para o mundo, fermento na massa, causa de mudança nas estruturas injustas. Aqui está o princípio para se organizar um projeto pessoal de vida.
O jovem deve ser agente de transformação no seu próprio meio. Quantas pessoas perecem pela falta da justiça, pelo desrespeito à dignidade humana. Quantas estão excluídas do progresso da ciência e da técnica. Quantas são vítimas da concentração da renda e da riqueza produzida, sem falar da falta de paz, do meio ambiente depredado etc. Dentro da juventude reside uma força muito grande de transformação de si mesma para transformar as estruturas injustas.
Você, jovem, precisa cada vez mais assumir o protagonismo próprio do jovem no mundo, na sociedade, na Igreja. Não pode deixar que os outros façam o que você pode e deve fazer. O compromisso de um mundo melhor depende de todos, principalmente do dinamismo e da coragem dos jovens. Recordo aqui o gesto solidário do Bom Samaritano, que vendo o caído, sente compaixão, aproxima-se e cura-lhe as feridas. Jesus diz ao mestre da lei que queria saber o que fazer para possuir a vida eterna: “Vá e faça a mesma coisa” (Lc 10, 37).

6 - A MÍSTICA PARA O JOVEM HOJE

Querido jovem, você não está sozinho. Está com a Igreja, comunidade dos seguidores de Jesus Cristo. Não somos uma comunidade perfeita, mas em nós há o desejo sincero e autêntico de seguir o Cristo, de nos configurarmos cada vez mais a Ele, nosso único e bom Pastor. Conte comigo, com minha amizade, venha também ser um discípulo missionário de Jesus Cristo.
Para isso Jesus, consciente de nossas fraquezas, deu-nos todos os meios necessários para levar adiante o seu pedido missionário.
Jesus Cristo nos indica, primeiramente, sentar aos seus pés e ouvir no silêncio de nossa consciência a voz do Pai. Deixar-se tocar pela oração pessoal, pelo cultivo de uma espiritualidade que fomente em nós o desejo da missão, do encontro com o outro. Na comunidade cristã rezamos uns pelos outros, fazemos a oração comunitária, de forma especial a santa Missa, onde nos encontramos com Deus que se faz alimento na Palavra e no seu Corpo e Sangue.
Mas também encontramos Deus nos outros sacramentos.
São sete que Ele permitiu que conhecêssemos, o suficiente para recebermos as graças necessárias à nossa vocação cristã. Jovem, veja no sacramento um valor para a sua vida, de forma especial a Eucaristia e a confissão.
Somente quem fez a experiência da graça dos sacramentos pode afirmar a beleza que é uma boa confissão: mais que “limpar” nossos pecados, ela nos dá a oportunidade de voltar à casa do Pai. A Eucaristia, palavra que significa “obrigado”, traz para nós a presença real de Jesus Cristo, uma grande ação de graças a Deus, um grande “obrigado” por ter nos entregue seu memorial perene.
Aos doentes, aos pobres e descartados Jesus sempre reservou um encontro pessoal, restaurador.
Nós também, ao nos encontrarmos com eles, estamos nos encontrando com o próprio Cristo que sofreu na cruz por nós.
Jovem, não dá para ser de Jesus Cristo sem reservar momentos especiais para estar com Ele.
Esse contato com Ele anima o nosso projeto de vida, fortalece o desejo de santidade, dá sentido aos compromissos com os pobres e sofredores, aumenta a nossa fé e nos torna capazes de amar e de sermos amados.

CONCLUSÃO


“Eu lhes escrevo, jovens, porque vocês são fortes” (1Jo 2, 17). Dentro de vocês há uma força muito grande. Se soubessem a força que mora em vocês, transformariam o mundo. Sairiam dessa tibieza e estagnação que muitas vezes os assolam.
Chegamos ao fim de nossa carta, mas não de nossa amizade e diálogo. Que ao menos nos queiramos bem. Peço que rezem por mim, pelo bispo e amigo que não cansa de pedir a Deus por vocês. Saibam dizer “sim” ao Evangelho.
De nada valerão estas palavras escritas, se vocês não fizerem uma opção pessoal por Jesus Cristo. Abram as portas de seus corações e deixem a mensagem do Evangelho tomar conta de suas vidas. Obrigado pela atenção, pelo carinho e amor à Igreja. Nunca se esqueçam da juventude da qual vocês fazem parte. Que Deus os abençoe. Um grande abraço e até breve. Espero a resposta de vocês!

Dom Anuar Battisti
Arcebispo de Maringá



Carta de Dom Anuar Battisti aos Jovens - Parte 4

4 - AFETIVIDADE: SEXUALIDADE, COMUNICAÇÃO E RELACIONAMENTO

Ninguém vive sem afetos. A afetividade é a base para se construir a nossa existência. O nosso ser é todo sexuado, comunicativo e de relacionamentos.
Precisamos entender melhor como cultivar a afetividade em nossa vida. A afetividade é a força que mora dentro de nós e que nos leva a transmitir a nossa sexualidade, o desejo de nos comunicarmos com o outro e criarmos relacionamentos de amizade verdadeira. Envolto em tudo isso está o amor, que dá o sentido do prazer e do reconhecimento do outro. Tudo isso é maravilhoso, pois lida com a sensibilidade humana, com os sentimentos mais profundos da pessoa, com o amar e o ser amado.
A afetividade não é abstração; é algo concreto. Ninguém tem afeto por uma idéia, uma filosofia, uma teoria. A afetividade supõe um grau de interação entre pessoas concretas. Por isso, há algumas situações de vivência da afetividade:
1º - A afetividade é sexualidade: o exercício da sexualidade enriquece a pessoa. O sexo deve ser vivenciado numa relação de liberdade e responsabilidade.
Quando não há estes dois fatores torna-se sentimento egocêntrico, próprio de pessoas imaturas e irresponsáveis com o outro. A igreja não é contra o sexo. Negar a sexualidade é negar a própria condição humana. Não existe pessoa assexuada. Ao contrário, a Igreja vê no sexo a transmissão sagrada da vida, o encontro transcendente entre duas pessoas que se amam.
Com o que não dá para concordar, porém, é com a banalização da sexualidade, com o prazer genital apenas, como se fosse uma mercadoria à venda. Sexo é coisa sagrada. Tão sagrada que Deus o colocou dentro do casamento.
2º - A afetividade é comunicação: todo o nosso corpo comunica o que somos. A comunicação está presente em todas as pessoas; e para comunicar os nossos sentimentos, idéias e opiniões, usamos nossa afetividade. É assim que acontece quando cantamos, dançamos, rezamos, fazemos teatro, escrevemos, conversamos... tudo isso comunica o que somos – afetos. Ninguém morre por falta de sexo, mas por falta de afetos.
Por isso, precisamos cultivar uma intensa afetividade em nós, cuidar de nossa auto-estima, exercitar os bons relacionamentos, o respeito pelo outro, a liberdade consigo mesmo.
3º - A afetividade é relacionamento: ninguém vive sozinho. Somos seres em relação, construímos nossa afetividade nos relacionamentos sólidos e verdadeiros. Quem vive de falsidades e aparências está construindo relacionamentos provisórios e decadentes. Quando cai a máscara da falsidade, as pessoas se afastam porque não encontraram autenticidade. Muitas vezes se esquece que os verdadeiros relacionamentos são constituídos de amor, confiança, liberdade, e estes duram para sempre.
Quantos jovens estão feridos na sua afetividade, na sua sexualidade, nos seus relacionamentos, porque faltou harmonia entre a razão e o coração. Com certeza o “coração tem razões que a própria razão desconhece”, porém nada se consegue se não existir disciplina, auto-controle, renúncia. Atletas jovens com ideais desafiadores “chegam lá” lutando incansavelmente, fazendo sacrifícios até da solidão e do isolamento.
Quanto suor e esforço para ter a satisfação de um prêmio, somente para este mundo. O que não deveríamos fazer para receber não um prêmio e sim uma herança, a herança eterna?
Nosso querido Dom Helder Câmara dizia:
“O único evangelho que muitas pessoas vão ler é o nosso exemplo de vida”. Este evangelho você já começou a escrever? Você não é mais criança. O que você está escrevendo só quem convive com você sabe ler, e só saberá escrever aquele que vive integrado com os outros. Na medida em que você se isola, perde a dimensão da união, de relacionamentos verdadeiros, de confronto com o diferente. O sentido da vida está na permanente busca de relações com os outros e com o totalmente Outro, deixando de lado qualquer vantagem pessoal.
Não pare, não desista. Busque, saia de si, vá ao encontro do outro, faça amizade, fale das coisas do coração, deixe de lado a vergonha de ser jovem cristão. Ame a você mesmo, acredite nas suas capacidades. Não importa onde você se encontra: venha somar com os outros jovens na comunidade cristã, que canta, reza e dá testemunho. Integre e entregue a sua vida, a sua afetividade, a sua sexualidade, convivendo e comunicando através de amizades verdadeiras.
Você vai ganhar tudo, porque é transparente. Não precisa esconder nada, porque ao seu lado alguém vai estar sempre, o jovem Jesus de Nazaré. Ele estará sempre com você, Ele o ama e preenche todo o vazio de sua vida. Assim o Evangelho mais lido na comunidade será o exemplo de sua vida. Viva a vida comunicando e comunique-a vivendo.


Carta de Dom Anuar Battisti aos Jovens - Parte 3

3 - AS DIMENSÕES DA PESSOA HUMANA


O ser humano é uma totalidade constituída de corpo, alma e espírito (cf. 1Ts 5,23). O corpo é a nossa dimensão biológica, material, física. A alma são nossos afetos e razão, potência de amar e discernir o que é bom ou mau. Enquanto o nosso espírito é a capacidade que temos de transcender, de encontrar Deus. Todo ser humano possui estas três dimensões; se faltar uma delas deixa de ser uma pessoa madura e dona de si.
Está muito em voga concentrar a vida em apenas uma dimensão em detrimento das outras. Fala-se muito do aspecto material da pessoa, reforçando apenas a dimensão corporal. Valorizar o corpo é algo bom e necessário quando se refere a praticar esportes, cuidar da saúde física, ter boa alimentação etc. O que não pode acontecer é considerar o ser humano apenas como corpo. A consequência é inevitavelmente viver a vida no materialismo, ressaltando apenas as necessidades biológicas, materiais e físicas. Outro risco é desconsiderar o corpo e pensar que somos apenas espírito, relação de transcendentalidade, de mística. O perigo de se centrar somente nesta dimensão é esquecer a vida concreta, histórica, cotidiana, como se ela não existisse. Por fim, cair no racionalismo nos remeteria a uma vida meramente intelectualista, sem transcendência nem contato com o mundo histórico.
O que seria ideal? Viver o equilíbrio destas três dimensões humanas. Por isso, querido jovem, proponho três metas para alcançar o equilíbrio e a integração destas dimensões:
1. Disponibilizar tempo para cuidar do material, do corpo humano e do corpo social, constituído de pessoas concretas e históricas. Nesta dimensão entra o compromisso com o bem do outro e da sociedade para que ela seja justa e igualitária.
2. Disponibilizar tempo para cuidar da dimensão afetivo-racional. Saber lidar com os afetos, emoções, autoconhecimento da condição humana, da personalidade, dos limites e fragilidades afetivas. Também a razão foi dada para continuar a obra da criação. Dedicar tempo ao estudo, à compreensão da dinâmica da sociedade, saber fazer uma crítica social e política sem desrespeitar a dignidade das pessoas. Entender o mundo nas suas construções históricas e contradições.
3. Disponibilizar tempo para cuidar da dimensão espiritual. Intensificar a amizade com Deus através da oração, do amor à Eucaristia, participando do grupo de jovens, amando a Deus e ao próximo. Uma espiritualidade que brota do Evangelho vivido.
Rezar é integrar a vida em Deus. Você, jovem, precisa buscar uma integração pessoal cada vez maior. Há momentos na vida que exigirão verdadeiro malabarismo para não cair na onda do mais fácil, do mais prazeroso. Vão exigir escolhas dolorosas, custarão sacrifícios, cujos frutos serão a paz interior e a tranquilidade de consciência. Por isso, vão exigir de você uma verdadeira disciplina, organização do seu tempo e atenção. Você tem uma grande capacidade de planejar, de criar, de inventar. Use isso para fazer da sua vida e da vida dos outros o melhor e o mais perfeito.


Carta de Dom Anuar Battisti aos Jovens - Parte 2

2 - O SENTIDO DA VIDA

O sentido da vida está em amar. Eis a chave para a felicidade. Amar e ser amado é o caminho de uma vida que vale o esforço de ser vivida. O amor supõe sempre outra pessoa.
Ninguém ama por si mesmo nem para si mesmo: não seria amor, mas puro egoísmo. O amor é encontro com o outro e, no outro, encontro das razões para viver, o complemento daquilo que não se possui. É a convivência fraterna, a diferença de pessoas que desperta em cada um o sentido da vida. Ninguém vai encontrar o sentido da vida sozinho, como se fosse uma ilha. Somos seres em relação, em comunhão com o outro e com Deus. Nosso mundo hoje incentiva muito o egoísmo e o isolamento. Isso gera pessoas vazias, sem sentido, sem projeto de vida, egocêntricas, como se fossem o centro do mundo, pessoas que se esquecem de Deus, da família, dos amigos. Estas pessoas crescem frágeis, melindrosas e inseguras na convivência humana. Faltou-lhes a experiência do outro, do encontro fraterno com o irmão e com Deus.
Jesus deixou um mandamento novo: “Amem-se uns aos outros, assim como eu amei vocês. Não existe maior amor do que dar a vida pelos amigos” (Jo 15,12-13). Deus nos amou por primeiro: é isto que preenche de sentido a nossa vida. Como posso amar o próximo e a mim mesmo se primeiro não reconheço o amor de Deus em mim? Só conseguiremos amar o irmão se primeiro experimentarmos que Deus nos ama. Se eu não reconhecer o amor de Deus em mim, dificilmente conseguirei amar as outras pessoas de forma madura e sadia. O amor de Deus é doação, gratuidade, relação com o outro. Aquilo que dou aos outros é o que antes já recebi de Deus. Ninguém dá o que não tem, inclusive o amor. Por isso, querido jovem, reconhecer o amor de Deus em nós é condição para amar a si mesmo e ao outro.

O amor não é sentimentalismo barato.
Muitos jovens vivem hoje um vazio existencial porque não fizeram a experiência do amor verdadeiro. Caem na superficialidade, nas coisas passageiras e por isso vivem a vida simplesmente pelo prazer. O prazer é bom, mas deve ser vivido com responsabilidade. O problema existe quando o prazer se torna fuga da sua própria vida. Torna-se um ciclo vicioso – quanto mais prazer busco, de mais prazer eu preciso. Transforma-se numa sede insaciável, que nunca tem fim. O papa Bento XVI nos dá um grande ensinamento: “O meu apelo hoje para vós, jovens, é que não desperdiceis a vossa juventude. Não tenteis fugir dela. Consagrai-a aos elevados ideais da fé e da solidariedade. Vós não sois apenas o futuro da Igreja e da humanidade, como uma espécie de fuga do presente. Pelo contrário, sois o presente jovem da Igreja e da humanidade. A Igreja precisa de vós, como jovens, para manifestar ao mundo o rosto de Jesus Cristo... Sem o rosto jovem a Igreja se apresentaria desfigurada” (Jornada Mundial da Juventude, 2008).